quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Fora do Eixo: Produção cultural e política


Para dialogar com "Novos Bárbaros - A Aventura Política do Fora do Eixo", dissertação do amigo Rodrigo Savazoni, lançada ontem em São Paulo, publico a seguir uma reflexão feita no ano passado sobre o FdE em sua transição da produção cultural para a ação política. A partir de práticas inovadoras na produção cultural independente, ainda no início dos anos 2000, um grupo de jovens de Cuiabá-MT desenvolveu uma série impressionante de soluções para os problemas que encontravam pelo caminho, em seus shows e festivais - de maneira coletiva e em pequenos circuitos. Essas experiências incubadas no calor escaldante da capital matogrossense foram fundamentais para atrair a atenção de outros coletivos em Estados vizinhos, no Sudeste e Norte e Sul, a partir de eventos locais de música independente que buscavam a sustentabilidade de suas ações num contexto semelhante em termos de carência de recursos. E de falta de atenção de políticas nacionais. Saber ultrapassar a pespectiva reivindicatória para a potência da articulação em rede foi crucial para um salto que não apenas beneficiou os públicos locais onde se desenvolviam tais ações, como também para gerar uma “ativação do desejo” em jovens artistas e produtores que, em distintas partes do País, também tentavam encontrar soluções para seus próprios problemas de sustentabilidade. Passando a atuar em mais de 200 cidades em todo o Brasil, esta trajetória de sete anos se desenvolve durante um período bastante importante de nossa história recente e que vale a pena relembrar. O Brasil do início dos anos 2000 era um país que ultrapassava o coitadismo, o “complexo de vira-lata” por meio de políticas sociais e econômicas que, em todo seu curso de implementação, nos últimos dez anos, tiraram cerca de 40 milhões de brasileiros de seu lugar abaixo da linha da pobreza, atacaram problemas estruturais de sua economia, colocaram o País de maneira altiva no cenário internacional e instituiram inúmeros espaços de empoderamento de perspectivas populares sobre as políticas públicas, tais como conferências, conselhos e colegiados. Também uma inovadora gestão na área da cultura - com Gilberto Gil e Juca Ferreira à frente do MinC - contribuiu muito para a visibilidade de iniciativas como a do Fora do Eixo, por seu caráter empoderador da juventude e pelo ambiente de criatividade e superação ativa dos problemas a partir de uma ideia de cultura ampla e valorizadora tanto da inovação quanto do popular, das identidades e do diverso. Trata-se, é preciso lembrar, de uma política que enfrentou o domínio do império da indústria cultural tradicional no Brasil e o fordismo e a homogeneização geradas pelo seu centro emissor: o eixo Rio-São Paulo. Outro elemento importante do período, e crucial para o desenvolvimento de uma iniciativa como o FdE, foi a crescente disponibilização de acessso à internet no País e sua utilização crítica, base para uma cultura digital e colaborativa. Sem mais precisar depender do eixo para comunicar, gerar e distribuir seus bens culturais, o interior (e Cuiabá-MT, Uberlância-MG, Rio Branco-AC, Londrina-PR são símbolos inequívocos disso) passou a ter muito mais meios de se expressar. Assim, é preciso dizer que o fato de um coletivo como o FdE iniciar a se desenvolver com muita força neste período também tem como causas estas circunstâncias nas quais soube navegar e se desenvolver. Fato é que, encontrando um ambiente propício, do qual fez ótimo uso, e desenvolvendo por conta própria diversas soluções (tecnologias sociais), da precária e pontual produção cultural local do início, o FdE se constituiu em uma enorme rede de coletivos, com mais de duas mil pessoas, centenas de festivais e uma série de “aplicativos do comum” desenvolvidos. Mas o que nos interessa neste artigo é abordar um outro elemento deste percurso: a passagem do FdE da produção cultural para a ação política e a aplicação das tecnologias sociais desenvolvidas pelo grupo no enfrentamento de questões que estão além do campo tradicionalmente visto como cultural. Com o tempo, soluções da produção cultural passaram a ser importantes também para movimentos de outras áreas, tais como a comunicação, as questões urbanas, ambientais e uma enorme pauta política de direitos humanos. O combate à homofobia e a discussão de uma política de drogas estão no centro dessas ações, mas também o movimento pelo passe livre e outros de interesse da juventude urbana e suburbanas têm o FdE na linha de frente em alguns e “na base” em outros. Mudanças estruturais da sociedade brasileira, em termos econômicos e sociais, mais que possibilitar, hoje necessitam de algumas das ferramentas desenvolvidas no âmbito desta trajetória para se consolidar. Para citar alguns exemplos recentes, basta lembrar do papel da mídia NINJA e da Pós-TV na questão da democratização da comunicação. Também não é de se ignorar a importância de uma Universidade das Culturas (Unicult), o Partido da Cultura (Pcult) ou as moedas solidárias que o Banco FdE estimula em todo País. Em 2011, a mudança de rumos no Ministério da Cultura, com a troca do governo Lula para o de Dilma e a retração do desenvolvimento criativo da ideia de cultura do ministério tropicalista que vinha sendo implementada nos últimos oito anos (com seus erros e acertos) contribuiu muito para uma tomada de posição de diversos grupos e iniciativas independentes, entre os quais o FdE. Muito disso se deu pela reorientação do MinC em relação à política de direitos autorais, mas no fundo o problema eram os sinais de mudança de foco do cidadão para a perspectiva do artista instituído e o “trabalhador” da cultura, principalmente aquele ligado à indústria cultural do RJ e SP.: o Eixo. Além disso, diminuiu-se a intensidade das ações em áreas fundamentais para a diversidade cultural, como no Programa Cultura Viva e as políticas de Cultura Digital, por exemplo. Mesmo com esforços para tentar um olhar sistêmico para a questão, a gestão de Ana de Hollanda acabou enfraquecida e finalmente substituída pela atual. No centro disso, um potente elemento atuava no jogo: o Fora do Eixo foi um dos coletivos que mais se incumbiram na tarefa de criticar a gestão. E politicamente saiu do episódio no centro da cena. A tal ponto que a primeira grande reunião da então nova ministra Marta Suplicy foi realizada sob a liderança do FdE, que inclusive formou (Pablo Capilé e Ivana Bentes) a mesa com a ministra. Reunião transmitida inteiramente pela web, com cerca de 700 pessoas constantemente conectadas. A liderança do FdE no processo refletia um resultado de um passo fundamental: entrar no eixo geográfico, simbólico e econômico do País, com a implantação da Casa Fora do Eixo São Paulo. Desde 2011, o FdE intensificara a articulação com as ações de diversas outras áreas, em dezenas de reuniões com movimentos ambientais, de trabalhadores rurais sem terra, de juventude, de partidos, de sindicatos, de estudantes, de comunicação independente e de mobilidade urbana, levando para essas articulações a perspectiva da produção cultural, num primeiro momento, e as do “Movimento Social das Culturas” num segundo. Aos poucos, também, o coletivo virava rede e de rede inventava-se como movimento a se relacionar com os outros coletivos, redes e movimentos. Em uma intensa agenda paralela a circuitos propriamente culturais, participou ativamente de mobilizações em frentes ambientais (Rio + 20), altermundistas (Fórum Social Mundial da Tunísia e Fórum Social Temático em Porto Alegre) e políticas (Amor Sim, Russomano não, Existe Amor em SP), além das mobilizações de junho e julho no Brasil. Identidades e diferenças Não sem diferenças, mas também com muitas semelhanças, o Fora do Eixo e o Movimento Social das Culturas colaboram com os outros movimentos a partir de sua lógica, a da produção cultural e da cultura, gerando avanços, mas também algumas dificuldades. Ao relacionar-se seja com os movimentos tradicionais, seja com novos movimentos em rede de outras áreas, com suas visões de mundo próprias, a relação entre o FdE e esses passou – e segue passando – também por questões às vezes tensas e alguns mal-entendidos. Seria importante analisar algumas delas. Em relação ao primeiro grupo, o dos movimentos tradicionais, é preciso refltir que o contexto do Brasil dos anos 2000 mudou muito, com o já referido desenvolvimento da cultura digital e da ação cidadã em rede. Dessa forma, criou-se um ambiente novo, exigindo novas categorias de análise comparativamente aos referenciais políticos e conceituais de MST, CUT e UNE - muito embora em diversas oportunidades esses movimentos e o Movimento social das culturas ajam com bastante consonância. Outra questão é que, apesar de não ter uma pauta claramente anticapitalista, o que o FdE faz é organizar, na prática, formas mais colaborativas de economia, empoderando grupos, distribuindo recursos e praticando princípios de economia solidária, incluindo o difícil caixa coletivo e o financiamento coletivo e distribuído para o atingimento de seus objetivos. Comparativamente aos movimentos mais tradicionais, o FdE já foi tachado de um movimento de “empreendedores da cultura”, com lideranças e centralizador de suas decisões. O estigma do empreendedorismo parece vir de sua origem no campo da produção cultural e no fato de gerirem diversos empreendimentos culturais simultaneamente de norte a sul do Brasil. E a defesa que fazem é a que essa forma de atuação é bastante propícia para quem vem de uma situação de periferia, geográfica e econômica, e que precisa de recursos para ocupar um melhor espaço na sociedade brasileira. De lá, ajudar a promover mudanças. Em relação aos novos movimentos, seria importante observarmos as contribuições dos recentes estudos do sociólogo espanhol Manuel Castells. Castells tem afirmado em suas palestras que os novos movimentos (refere-se aos modelos europeus e que estes teriam semelhanças com os de outras regiões do mundo) têm como características comuns ser descentralizados, sem lideranças, democráticos, horizontais e sem um programa delimitado. O FdE é frequentemente “acusado” por movimentos novos de “desrespeitar” algumas dessas normas, principalmente por se referenciar em uma liderança nacional: Pablo Capilé, seu principal articulador e iniciador da rede. O tema da presença de lideranças parece decorrer da mesma origem na produção cultural, em que a maior disponibilidade e o envolvimento de alguns integrantes do coletivo recebe um natural reconhecimento do grupo, que a eles submete pontos de vista e avaliações para a ação. Salve-se, no entanto, o fato da produção coletiva dessas decisões. Também não devemos esquecer que mesmo os mais horizontais movimentos da sociedade acabam tendo lideranças referenciais ou pelo menos porta-vozes. E se não claramente colocados, de maneira velada o papel da liderança (ou daqueles que mais doam seu tempo e investem energia para o projeto) se dá em quase todos os movimentos conhecidos. Quanto à horizontalidade e democracia interna, paira mais uma zona de desconfiança do que exatamente um objetivo questionamento. Um tema, no entanto, é frequentemente causa de atrito, tanto com o primeiros quanto com o segundo tipo de movimentos: o financiamento. Quanto a relação ou não com empresas ou governos (o comum relacionando-se com o mercado ou o Estado), o FdE tem adotado desde o início, como estratégia de sustentabilidade e de expansão, organizar projetos com financiamento tanto de um quanto de outro para por em práticas suas ideias. Argumentam que esses recursos se não disputados irão para algum lugar e financiarão ações menos progressistas e avançadas. Um fato novo É preciso considerar que, com sua origem e atuação no campo da produção cultural, o FdE chega ao político de maneira diferente tanto da trajetória dos movimentos sociais tradicionais quanto dos novos movimentos em rede, sejam eles brasileiros, da África, da Europa, Chile ou Estados Unidos. Não nega esses dois tipos, mas se organiza com elementos que também incluem as formas como se orientam tanto os tradicionais como os novos movimentos. O certo é que, no rastro da Primavera Árabe (Tunísia, Egito, Líbia e outros), Espanha, Grécia, Inglaterra, Itália, Portugal, Estados Unidos, Turquia e diversos outros países, como o Brasil, sentem, à sua maneira, os efeitos de uma força que tem desmanchado no ar lideranças outrora sólidas, seja assentados no mercado, seja no poder político. Também os movimentos sociais tradicionais são impactados pela emergência desses novos sujeitos políticos. Dessa maneira, a contribuição do FdE deveria ser vista como uma entre outras nesse contexto, levando-se bastante em conta as circunstâncias em que ela se desenvolve. Errado, parece, seria querer esperar no Brasil uma forma de atuação que não levasse em conta seus elementos internos, tais como a enorme força de suas periferias (geográficas, econômicas, sociais e de acesso a bens culturais), a informalidade própria das camadas populares e a necessidade de se pensar um movimento de juventude de periferia (geográfica e econômica) como este contando com as contradições próprias do País. Aplicar no Brasil fórmulas que explicam o 15-M ou outras manifestações do Norte da África e dos Estados Unidos e Europa sem a devida contextualização pode ser inadequado para entender fenômenos como as mobilizações de junho, passe-livre, e o FdE. “Sampleadas”, modificadas e colocadas em prática de acordo com realidades locais, as estratégias do Occupy e do 15-M espanhol geraram no Brasil o que o atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, considerou em seu discurso de posse, em janeiro deste ano, “um fato novo”. No caso das eleições em SP, já sem conseguir fazer uma narrativa mobilizadora da juventude em rede, não eram sindicatos nem partidos os que estavam decidindo o futuro político da cidade de São Paulo (do Estado e talvez do Brasil), mas movimentos em rede, principalmente – e esta é outra novidade -, primeiro mobilizados pela cultura, capitaneados por coletivos como o Fora do Eixo. Se o que acontece na maioria das eleições é o prefeito agradecer ao seu partido e à sua coligação pela vitória nas urnas, o fato de Haddad abrir e fechar seu discurso com um elogio a essa mobilização de coletivos em rede traz o que pensar sober aquele e o atual momento. No anos de 2011 e 2012, seja na Plaza del Sol, na Plaza España, em Wall Street, em frente do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na Praça Roosevelt ou sob o Viaduto do Chá, os acampamentos, autogestionários, mostraram em suas faixas e cartazes que os jovens acampam por “paz com justiça social”, por “democracia real”, “um mundo ambientalmente, economicamente e socialmente sustentável”, feito a partir da “ação cidadã em rede”, da “cultura colaborativa”, do “compartilhamento de bens culturais”, da “democratização da mídia”, da “diversidade ambiental”, da “diversidade cultural”, da “livre orientação sexual”, da “liberdade de ir e vir”, de um “controle global dos fluxos de capital volátil”, e de muitos dos outros conceitos de uma “nova cultura política”. A meu ver, o FdE aborda em seu trabalho praticamente todas essas pautas, não só na mesma direção que o restante dos movimentos como em algumas delas atualizando até mesmo as suas práticas. Vide Mídia Ninja e Pos-TV entre outros. Sivirismos e simulacros As experiências do Fora do Eixo deram origem aos protótipos dos quatro simulacros que hoje a rede utiliza para resolver problemas internos e externos no que se refere aos temas da Economia, da Comunicação, Política e Educação. Na 1. Economia (Banco Fora do Eixo, moedas sociais, bancas de vendas em festivais, com o Camelô 2.0, Distribuidora de produtos, caixa coletivo, Hospeda Cultura, conta Comum e um eficiente sistema de mapeamento de editais e projetos voltados para a área da cultura, 2. Comunicação (antes da já superconhecida Mídia Ninja e da Pós-tv, o FdE faz uma muito eficiente utilização das redes sociais, além de maillings específicos, cobertura colaborativa, cidadão multimídia e ondas 3. Política (Partido da Cultura, ações de hackeamento do Estado, reuniões e assembleias com inúmeros movimentos e partidos políticos dentro do espectro da esquerda, além do Movimento Social das Culturas, em que o FdE reúne, a partir da ação em cultura, um sem-número de ativistas e coletivos que cada vez mais tem interface com movimentos sociais brasilerios de todas as áreas, principalmente os relacionados aos problemas urbanos e de juventude, 4. Educação (Universidade das Culturas, desconferências, aulas abertas, oficinas, conferências, vivências, colunas, observatórios etc. Os produtos dessas quatro grandes áreas são desenvolvidos de acordo com muitos dos princípios da cultura colaborativa, decorrentes do mundo da cultura digital e do software livre aplicados por muitos grupos nos últimos anos aos campos da comunicação e da cultura. São resultado do emprego de múltiplas fontes, com horizontalidade, de forma distribuída e com seu código-fonte disponível para sua replicabilidade. Fazem uso de licenças livres e promovem uma ética hacker, cujos resultados são repartidos entre os envolvidos de maneira a beneficiar não apenas a rede como um todo, mas seu imenso público-alvo, no qual se destaca o jovem de periferia e de cidades do interior do Brasil. São ferramentas de comunicação independente, de economia colaborativa, de educação livre e política do comum. Cada vez mais, a rede de coletivos tem, ainda, avançado no sentido de uma radicalidade própria da filosofia hacker, proveniente das redes de desenvolvedores de software livre. E possibilitará com que seus apicativos do comum gerem ainda mais interesse que hoje. É o caso do Pós-tv, da Mídia Ninja, da Universidade das Culturas, de inúmeras moedas sociais (de Patativa no Nordeste, Cubo Card, no Centro-Oeste, até o Sopapo no Sul) e do partido das culturas, todos buscando formas novas de organização, sustentabilidade e condições para a ação em suas frentes. O “sivirismo” está no núcleo desta visão de busca ativa de soluções para seus problemas e de outros coletivos. Em vez da perspectiva crítica (e muitas vezes passiva) tradicional na esquerda, o elemento do “empreendedor coletivo”, fazedor e buscador de alternativas criativas para os obstáculos colocados no dia a dia (o que é próprio da vida do produtor cultural, principalmente os que estão fora do eixo econômico) dão o tom de uma relação com essas questões que abandona, como diz Capilé a “lágrima” para a trabalhar na “potência”. Onde o tradicional ativista com suas categorias clássicas analisa e esquadrinha dificuldades, muitas vezes intransponíveis, a perspectiva hacker vê um problema que exige uma solução inteligente, um hack. É isso que move o “se-virar” do jeito que dá e que junto à cultura da dádiva (também própria do mundo das ações coletivas) geram produtos novos replicáveis de maneira livre e gratuita. Um outro elemento da cultura hacker: do ponto de vista coletivo a geração de uma economia da abundância, comum, colaborativa e do ponto de vista individual o reconhecimento do grupo pelo esforço empreendido e pelo produto criado. Manuel Castells já observou em A Galáxia da Internet – Reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade, que foi na academia, principalmente do mundo das pesquisas em torno dos softwares nos Estados Unidos que se originaram os preceitos da ética hacker. Na verdade, no mundo da ciência pura e das ciências humanas a economia da dádiva é uma prática, assim como o trabalho colaborativo, a distribuição dos resultados e seus usos por qualquer um pesquisador, desde que citada a fonte, de maneira gratuita gerando, com suas combinações, produtos novos que por sua vez podem ser utilizados por toda a comunidade de maneira gratuita. A análise pelos pares, ou seja, pelo coletivo e pelo seguimento dessas mesmas regras, é que o institui enquanto cientista portador deste ou daquele título. De maneira informal, coletivos atuais fazem o mesmo e com o progressivo uso da tecnologia. Gambiarra e hack, tecnologia e informalidade O Mídia Ninja e a Pós-tv são dois dos exemplos mais bem acabados de aplicativos do comum desenvolvidos na Rede Fora do Eixo. Estes, no caso, para o exercício do jornalismo cidadão, independente, da mídia livre autogerida e referenciada também nos mesmos valores da filosofia hacker. Chama a atenção a estética provocativa dessas ferramentas desde seus próprios nomes: o Narrativas Independentes Jornalismo e Ação (N.I.N.J.A) e a Pós-tv narram-se em um ambiente pós-industrial, esteticamente orientados por uma ideia de independência tanto do ponto de vista das fontes de financiamento de mercado quanto da independência de linguagem, de programação, de coberturas de forte teor popular, principalmente se prestarmos atenção em como elas se inseriram nas coberturas das manifestações iniciadas no mês de junho e sua enorme repercussão nacional e internacional ressignificando a própria ideia de jornalismo independente, mídia alternativa ou midia-livrismo. Mais que essas outras, o Ninja e a Pós-tv acabaram gerando um enorme interesse da sociedade brasileira e também da mídia comercial que ajudou a levá-la a uma popularidade inesperada. Isso se deu devido à sua eficiência nas coberturas, à profundidade dos debates na Pós-tv e à informalidade e criatividade dos formatos. Mas o definitivo foi o fato de ter em seu âmago princípios de cobertura colaborativa, compartilhada, em rede - seja pilotando um carrinho de supermercado com uma câmera improvisada e um cartaz de papelão com o nome da “emissora” do comum, seja em dezenas de celulares transmitindo ao vivo e online quase que com a mesma linguagem dos videogames, em que a cobertura dos embates entre polícia e manifestantes se dava de uma maneira nunca antes vista em tal intensidade e por dentro. Foi ainda a convergência “raciovital” (razão e vida) da complexa tecnologia de smartfones, sua portabilidade e eficiências crescentes com o núcleo vital da cultura brasileira a responsável não apenas pelas iniciativas aqui relatadas, mas por sua aceitação social. Trata-se da informalidade de nossa cultura, seu bom-humor e disponibilidade para valorizar os improvisos, as gambiarras, os hacks. A valorização social do “sivirismo”, a ceitação do improviso, da ginga, do drible presentes desde sempre nas culturas que hoje formam o Brasil são fatores fundamentais para explicar o sucesso dessas e de tantas outras iniciativas que a rede produz e disponibiliza. Mas onde estava toda essa criatividade e ousadia, hoje capaz de gerar em escala social uma energia que recombina com liberdade elementos díspares e forma sínteses abertas, disjuntivas, possibilitadoras de hackeamentos no mercado e no Estado? Estava invisibilizada da mesma forma que as culturas populares, rurais, urbanas e suburbanas. O fato é que a decadência simbólica dos mediadores na cultura, no mercado, no Estado, na comunicação, na educação etc derrubou também muito do conjunto ortopédico de valores que vertebrava a sociedade brasileira em uma formalidade racional abstrata. O poder econômico de uma racionalidade instrumental físico-matemática, calculadora e gananciosa devorava sem trégua os produtos da nossa diversidade para transformá-los pela galvanização da tela de selênio da TV e as ondas do rádio em lucro da indústria cultural do Eixo. A mídia tradicional com a força ortopédica dos estereótipos achatava (e segue achatando, só que agora com alguma possibildade de contraponto) a contribuição inestimável de todos os nossos erros, como dizia Oswald. A formalidade do Estado, do Mercado e da Mídia comercial, com seus apresentadores de terno e gravata, sua narrativa em fórmulas prontas e lugares comuns e até mesmo a ideia corporativa que subsume a liberdade de expressão do cidadão ao exercício da profissão de jornalista vem sendo descascada pelas iniciativas do comum. Assim, o uso das novas tecnologias possibilita não apenas de bagunçar “isso tudo que está aí”, como de também gerar usos informais e aplicativos do comum à margem da oficialidade e formalidade. Mais uma vez, frise-se: a educação do comum, a economia da colaboração, a política do novo sujeito em rede, a comunicação do comum, ou seja os quatro simulacros, “espaços informais” ou com formalidades próprias os quais a Rede FdE desenvolveu e segue encontrando formas de, neles, gerar aplicativos novos. * Escritor, secretário adjunto de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A Vaca Azul é Ninja em CC Ela está de volta, depois de 20 anos. Uma vaca azul, ninja e louca solta em Porto Alegre a apavorar a tudo e todos, em nome do que considera ser o verdadeiro, o bem e o belo. Demodê, ultrapassada, espécie de intelectual e artista violento e inadequado ao mundo, a Vaca trocou os pés pelas patas, depois de tantos anos mansa na mítica Fazenda Nova Iasnaia Poliana, no pacato Pampa. Os tempos são outros, a bicha quase a mesma, mas ainda um tipo de parente vacum do Analista de Bagé, "contumaz olheiro de bizarrias desta espécie". As mudanças tecnológicas, políticas e culturais ao redor carcomem boa parte de seu instrumental teórico e estético. Mesmo assim ela teima em seguir sua luta contra o senso comum, com o que pode, com o que encontra pela frente: um livro, um porrete, um golpe marcial. Só não pode negar que um mundo novo também se forma, fonte renovada de mistério que ele, para ela, é. "Deus salve as vacas azuis e os homens da demência!", dizia um medroso narrador no primeiro livro de 1994, o oculto Jey Jey que novamente conta esta história, tão inacreditável quanto necessária. No link abaixo, o texto completo do livro publicado em creative commons pela Libretos Editora https://docs.google.com/file/d/0B1o35wRlcP0EdGFfa3hrdFhrVzhLX1F3eExSRkpWRm9VWFY0/edit

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Microdicionário de Cultura Digital (Peças para um)


Ação cidadã em rede - espaço da construção da cultura p2p, a cultura de rede, dos que colaboram, produzem e compartilham. Autonomia - possibilidade de autonomia de uma sociedade nova, orientada pelos interesses do comum em vez dos do mercado ou de estados ortopédicos. Cidadania digital - acesso e uso autônomo das possibilidades expressão (upload) e fruição (download) simbólicas via internet. Participação na cultura contemporânea. Comunicação do comum - antônimo de comunicação de mercado. Conexões Globais - lugar de visibilidade das sinapses das ações em rede. Cultura digital - uso não passivo/consumista/funcional dos meios digitais, mas autônomo, criativo, estético, ético e político. Democracia real - cultura digital, colaborativa, serve para aprofundar e dar mais consistência à democracia institucionalizada, representativa. Diagonalismo - encontro dos pontos positivos entre as estruturas verticais com as horizontais. Digitalógico - Digital e analógico (movimentos, ações, presencialidades, para além da falsa dicotomia entre eles). Diversidade cultural - a cultura digital destampa a diversidade cultural homogeneizada pelos meios de reprodução dos interesses de lucro e sua visão de mundo. Em construção permanente - a cultura digital não "é", mas sim um ir-sendo (dá-lhe Ortega y Gasset). E neste ir-sendo, também vai fazendo o futuro como projeto, a partir do uso não heterônomo e consumista dos produtos da tecnologia. Era do E - era das conjunções, das convergências, das superações dos binarismos 1 ou 2 e das dicotomias digital x analógico, real x virtual. Estado|mercado|comum - diferenciação das três instâncias da vida pública contemporânea (Michel Bawens), sendo que esta última emerge com força com o uso da internet. Hoje se pode falar em estado|mercado|comum, cada um deles com seus valores, sua cultura, suas formas de legitimação da arte, sua comunicação, seus interesses. Quanto mais o comum se aproximar do Estado, mais possibildiades de seus valores (colaboração/desconcentração/distribuição/diversidade/copyleft/sustentabilidade) ganharem espaço, diminuindo a influência histórica do mercado (e seus valores, como apropriação/acúmulo/copyrights/lucro) sobre ele. Estado-rede - colaborativo, que diminua a distância entre os governos e a sociedade. Nem ortopédico (achatador das subjetividades), nem ausente (ao Deus dará do mercado e suas mil mãos invisíveis). ... Prossumidores - em vez de passivos consumidores (a massa), ativos cidadãos em rede (o comum), programadores de seu próprio projeto vital. Reencantamento para a política - a cultura colaborativa é o antídoto para a ideia pessimista dos conservadores de que o homem é o lobo do homem. Reorientação da política para a utopia como lugar a ser construído, em vez de desde já inexistente, segundo a pobre lógica dos realistas.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Cultura digital e participação


A cultura digital tem sido uma importante aliada da democracia e da consolidação de uma ideia de Estado sob controle público. A internet e a ação cidadã em rede são potentes meios de se diminuir a distância entre Estado e sociedade, colocando os governos mais próximos do que pensa e vivem os integrantes da sociedade contemporânea. Não apenas na cidade, mas também nos mais longínquos rincões a realidade do acesso à internet tem revolucionado a maneira como o cidadão participa da vida pública. Mais que isso, ela tem servido para a emergência de novos sujeitos políticos, de novas pautas e reivindicações. Seja pelo uso das redes sociais, seja pelo acesso aos inúmeros blogs, cresce o número de pessoas que, por meio de um ambiente pós-massivo, constrói uma nova esfera pública, ponto a ponto, pessoa a pessoa. Estado, Mercado e Comum. Esta é a tríade de instâncias sob a qual a vida em coletividade se desenvolve na contemporaneidade. E é a instância do comum que emerge com as novas tecnologias. Ao fazer uso da internet e das ferramentas online para ampliação de seus repertórios e para dizer o que pensa do mundo à sua volta, além de gerar ação em rede, o comum ganha espaço como força mais importante e ativa que a categoria de "massa", referência da era industrial. Vivemos num mundo ao mesmo tempo arcaico, pré-moderno, moderno, pós-moderno e ultramoderno. às vezes em um único dia essas dimensões podem ser vividas na rua de qualquer cidade do mundo. Da mesma forma, habitamos um mundo ao mesmo agrário, artesanal, industrial e pós-industrial, daí que já não podemos prescindir, em um mundo tão complexo, das ferramentas mais avançadas para gerar um ambiente de mais participação do cidadão na vida pública. Um abrangente Sistema Estadual de Participação Popular e Cidadã precisa contar com grandes e pequenas reuniões presenciais, ao mesmo tempo que faz uso das novas tecnologias para colocar o Estado cada vez mais sob controle público, condição fundamental para a democracia de nosso tempo.

A América Latina saindo dos eixos

A vigorosa experiência brasileira de redes e coletivos de cultura começa a transbordar para a América Latina. Por uma série de elementos culturais, econômicos e sociais, o uso da internet no Brasil tem sido bastante progressista, resultando em articulações e combinações que chamam a atenção internacionalmente. Talvez pela informalidade nuclearmente presente em nossos modos de ser e de fazer, no Brasil a internet ajudou a que a vitalidade e a espontaneidade das ações culturais e sociais se conectassem fortemente, com empoderamento e escala. Um tanto mais formal que a sociedade brasileira, a Argentina vem encontrando a sua maneira de fazer com que essas experiências de antropofagia tropical se adaptem à sua base produtiva cultural local, num esforço louvável de seus gestores públicos. Foi assim que o Mercado de Indústrias Culturais da Argentina (MICA), realizado de 11 a 14 de abril, na Tecnópolis de Buenos Aires, serviu de palco para a Secretaria de Cultura de la Nación lançar um programa chamado Recalculando. O programa é uma ação do Estado argentino que praticamente replica as práticas e as “tags” das redes e coletivos do Brasil para recombinar a forma como a economia da cultura se desenvolve naquele país. Nessa recombinação estão presentes conceitos de empoderamento, ação horizontal, descentralizada, diversidade cultural, com o objetivo de desenvolver e profissionalizar a música emergente. A estratégia é a mesma desenvolvida já há sete anos no Brasil com a rede de coletivos Fora do Eixo – um dos organizadores do programa argentino esteve em São Paulo conhecendo as experiências da Casa Fora do Eixo e levou para o país vizinho a tecnologia social aprendida com e disponilbilizada pela rede brasileira. A diferença é que em vez de ter vindo da sociedade, autorganizada e descentralizada, o Recalculando é fomentado pela União, com o objetivo de fomentar a conexão de coletivos hoje isolados e com pouca escala em sua ação colaborativa. Como ocorreu com o programa Pontos de Cultura (que na Argentina se chama Puntos de Cultura) a rede de coletivos Fora do Eixo agora tem servido de modelo brasileiro adotado pelo governo de lá para ativar circuitos regionais e coletivos de artistas em redes mais amplas e com maior poder de ação. A ideia é propiciar pontos de encontros de músicos, gestores, produtores e realizadores visuais de todo o País, constituindo nexos entre coletivos de música emergentes com instituições, empresas e entidades tanto do âmbito público quanto privado. Com o programa, o Estado argentino recombina a experiência brasileira e disponibiliza uma potente ferramenta para a conexão das três esferas que devem ser levadas em conta na vida cultural de nosso tempo: além do Estado e do Mercado, o Comum - potencializado hoje pela internet. No país vizinho, o governo descobriu que, além da indústria cultural tradicional, precisa apoiar as recentes e inovadoras iniciativas pós-industriais, por seu potencial de distribuição de riqueza, de ampliação de uma visão colaborativa da sociedade e de ativação uma cidadania ativa. Como no Fora do Eixo, os resultados econômicos são tão ou menos importantes que a ampliação das visões de mundo propiciadas aos integrantes desses grupos e a possibilidade de concretizar sonhos conjuntos. Assim como o capitalismo gera pobreza (mais que riqueza), a indústria cultural tradicional geral fracasso (muito mais que sucesso). É isso o que se está mudando, seja da sociedade para o Estado (como no caso do FDE), seja do Estado para a sociedade, tal qual ocorre com o Recalculando. O lançamento do programa também serviu para mostrar o enorme potencial que tem a experiência do Fora do Eixo para se espalhar a outros países latino-americanos. Não apenas o FDE foi citado como exemplo inúmeras vezes nas mesas de discussão sobre economia da música, como foi o centro das atenções em diversas reuniões com selos independentes, circuitos de festivais, produtores e gestores públicos de cultura da Colômbia, México, Uruguai e Bolívia, entre outros. Muita coisa vem por aí, resultado das “conversas infinitas” entre os brasileiros e os hermanos de todo o continente. É a América Latina saindo dos eixos da indústria cultural tradicional para se integrar em modelos mais colaborativos e solidários.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Homem-massa para download

Meu livro "Homem-massa: a filosofia de Ortega y Gasset e sua crítica à cultura massificada", publicação da Bestiário com a Fundación Ortega y Gasset está disponível para download no site http://www.bestiario.com.br/homem-massa.html, sob licença creative commons. Apareçam.

domingo, 28 de outubro de 2012

Saturno no laranjal

Nosso pai era um exímio descascador de laranjas. Com velocidade e precisão, ele deslizava a faca afiada entre o amarelo da casca e o branco do bagaço, sem nunca feri-las ao ponto de aparecer alguma parte da polpa. O que nos encantava era como se formava uma espiral comprida, que ia descendo de sua mão a cada volta da lâmina afiada e que só terminava quando a tampinha da outra ponta também estava feita. A casca, então, despencava, dali, inteira para a grama. A gente se acotovelava pra chegar primeiro e era sempre eu, o mais velho, que as pegava antes, para brincar. Pareciam, à minha imaginação, pequenos móbiles ou baralhos de mágico que se abriam em sanfoninhas perfumadas. De tal maneira era feito aquilo que nós - que nunca conseguíamos nem uma coisa nem outra, ou seja, nem retirar a casca intacta nem fazê-lo sem esfolar - e consequentemente sangrar - a laranja aqui e ali, ficávamos de boca aberta com a habilidade dele. Nosso pai fazia isso em silêncio. Uma, três, cinco vezes, embaixo da laranjeira. Às vezes se esticava todo e puxava um galho para baixo para pegar as mais maduras. Nós três ficávamos ansiosos querendo saber para quem ele daria, primeiro, a laranja tão habilmente descascada. Mas ele sempre nos desapontava. Não digo que apenas no começo ele tenha gerado esse sentimento e que depois a gente tenha se acostumado. Nós sentávamos a uma pequena distância a vê-lo comendo, sozinho, cada uma daquelas laranjas tão bem descascadas. Com a já referida habilidade, nosso pai chupava-as inteiras e jogava fora os bagaços intactos, como se fossem cabeças de crianças murchas. J.A. (contos)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cultura digital e desmassificação

Em 2020, o mundo deverá ter mais de 24 bilhões de dispositivos conectados em rede, como apontam pesquisas da empresa Machina Research http://www.machinaresearch.com/), especializada no tema. Com isso, haverá uma média de três aparelhos conectados por pessoa, incluindo celulares, eletrodomésticos, tablets e até computadores. Eles poderão ser utilizados heteronomamente. Ou de modo um pouco mais autônomo. Se de maneira heterônoma, continuarão gerando massificação, mesmo que venha a ser um tipo customizado de massificação. Se de forma mais autônoma, poderemos ver a emergência de indivíduos-redes desmassificados? Certamente que os atuais avanços da era digital podem, se bem aproveitados, gerar um ambiente menos favorável à homogeneização cultural e à vigência do comportamento do que Ortega chamou de homem-massa - este produto da técnica da era industrial que se desenvolveu na virada do século XIX para o século XX. Agora, em pleno século XXI, mais uma vez o desenvolvimento técnico vem trazer questões importantes para se pensar sobre como o ser humano se comporta em relação à tecnologia que ele mesmo desenvolve. Diferentemente do homem-massa delineado por Ortega na década de 30 do século XX, os seres humanos atuais, do ponto de vista tecnológico, têm abundantes condições de viver numa multidimensionalidade da cultura. Há mais acesso à diversidade cultural e às condições de se fazer as recombinações de elementos, processos e visões de mundo, muito mais do que em qualquer outro momento da humanidade. Portanto, em se tratando de cultura, essa palavra cujo sentido em muito tem a ver com modos de fazer, de técnicas e interação de indivíduos entre si e destes com a natureza, uma cultura ligada ao ambiente digital não pode ser desconsiderada numa leitura mais plena de nosso tempo. A cultura digital e seus rebatimentos estéticos (diversidade cultural e recombinações), éticos (ética do compartilhamento) e políticos (ação cidadã em rede, descentralizada e com menos mediação de estruturas verticais) são, em termos mais amplos, um importante tema de nuestro tiempo. Não se trata mais da perda da aura da arte na época de sua reprodutibilidade técnica - como assinalava Walter Benjamin - mas, devido à desmaterialização dos suportes ocorrida nas últimas décadas, trata-se da perda da aura da obra de arte na época de sua infinita reprodutibilidade técnica. Há mais condições de heterogeneidade, diversidade, inter e transculturalidade, portanto mais condições (e responsabilidades) dos sujeitos contemporâneos fazerem a si próprios. Foram décadas de unidimensionalidade (O homem unidimensional, de Herbert Marcuse). Nelas, a sociedade industrial impunha quase que uma única dimensão da vida: uma racionalidade “tecnológica” (físico-matemática, para Ortega) de mão única. Ela dominava e oprimia por meio de aparatos de controle das consciências humanas, meios de entretenimento e comunicação de massa que hiperdimensionavam em todos a pulsão de vida (sexo, jogos, entretenimento) e a pulsão de morte (violência urbana e sensação de insegurança extrema). O resultado eram homens e mulheres autômatos, incapazes de se opor ao sistema, pois vivendo a mecânica do conformismo, dentro das benesses do conforto. Agora, com as novas condições, não há também mais desculpas: o homem-massa, paciente e agente de sua condição de massa, invertebrado habitante do ambiente técnico-consumista do século XX, dominado pelo mercado, por partidos, sindicatos e estados ortopédicos, de cima para baixo, não tem mais a quem jogar a responsabilidade. Ele pode recuperar sua autenticidade, como em nenhum outro momento da Humanidade. A técnica do século XIX engendrava o homem-massa, dizia Ortega. A técnica do século XXI pode engendrar o pós-homem-massa. Se para os frankfurtianos e para a teoria crítica, o comportamento heterônomo era inculcado pela indústria cultural nas cabeças das pessoas, hoje este elemento se fragmenta. Desaparecem dia a dia os mediadores e as indústrias de fabricação de suportes materiais da arte e, de todo lado, movimentos de indivíduos em rede trazem as visões da periferia para o centro do debate sobre cultura. Com tudo isso, é possível dizer que estão dadas as condições técnicas para a superação tanto do homem massificado quanto do homem atomizado, fechado em si, solipsista, consumista individualizado e não participante de sua circunstância?

Cultura digital e desmassificação I

Pós-homens-massa Aqui e ali já se notam as estratégias das empresas na internet para gerar comportamentos massivos através de ambientes pós-massivos. São espécies de homens- massa customizados, a parecerem indivíduos autônomos, mas no fundo não só seguem como aprofundam os padrões de consumo da era industrial. Um perigo é que, com as novas tecnologias de produção pós-industriais, a produção capitalista atual sabe que não precisa mais fazer nada em série, nem seres humanos em série. Hoje, trabalhando com a tática de criar – eles dizem “descobrir” - nichos de mercado, ela amplia seu poder ao fazer homens-massa customizados, com aparência de autônomos. As roupas e os cabelos parecem diferentes entre si, mas este tipo de homem-massa customizado segue o mesmo por dentro: inautêntico e diminuído ao elemento fundamental do consumidor, em vez de responsável por fazer sua própria vida. Mesmo no ambiente pós-massivo, este tipo massificado pelo mercado continua massa, pois segue sendo educado pelo mercado e pelos usos da sociedade desvitalizada pelo pragmatismo utilitarista, materialista e agora pela internet para se comportar como massa, invertebrada e vaga. Em sentido contrário, nunca se teve tantas condições de se “hackear”, fazer truques, implantes, rachas no sistema. A articulação da cultura colaborativa digital com a economia solidária tem revelado um potencial gigantesco de revitalização cultural, em todo o mundo onde ela se desenvolve. Uma das razões é que ela é capaz de “destampar” culturas populares rurais, urbanas, suburbanas, antes invisibilizadas, por sua capacidade de descentralizar e multidirecionar os fluxos de informação e de recursos, antes unidirecionalmente ativados desde um centro industrial para o consumo de massas. Sua capacidade de transversalidade e transdisciplinariedade permite que se gerem soluções e alternativas, convergências entre futuro e passado, de saberes e fazeres tradicionais com as inovações de ponta, sem no entanto isso significar homogeneização, mas mistura, diversidade, amálgama ou síntese. E como seria este pós-homem-massa? De maneira dialética, é preciso procurar a virtuosa posição de convergência, como Aristóteles ensina com o seu certeiro meio-termo justo. Com as condições atuais, ele pode sair do binarismo. Pode não ser nem horizontalidade nem verticalidade somente. Pode deixar para trás a infértil ideia de não-sujeito da pós-modernidade, da quase anulação da possibilidade de agir esteticamente, politicamente e eticamente da pós-modernidade, mas não precisa retornar ao indivíduo solipsista cartesiano, cheio de uma moral e de uma razão mortas, como alertava o filósofo espanhol. Nos dias de hoje, começamos a ter a convivência de indivíduos solipsistas, homens-massa, homens-massa customizados e pós-homens-massa. Primeira parte do posfácio de Homem-massa A filosofia de Ortega y Gasset e sua crítica à sociedade massificada Lançamento dia 17 de outubro, 19h. Pinacoteca Rua da República, Cidade Baixa, Porto Alegre.

Cultura digital e desmassificação II

Em vez de massa, o comum Pelo menos há mais condições de surgirem pessoas conscientes desta circunstância e que se conectam a outros, em rede, para gerar capacidade de influir e de produzir narrativas novas, mais autônomas que heterônomas. É também outra ideia de coletivo, não a que Ortega criticava, em cujo interior as ideologias das grandes narrativas achatavam as consciências. Trata-se de uma ideia de coletivo em que ponto a ponto, pessoa a pessoa, os sujeitos que o compõem têm liberdade de ser e de pensar por si próprios. Em vez de massa, poderemos falar em “comum”, em que os indivíduos, com mais liberdade do que antes se reúnem livremente, autonomamente, para colaborar, para trabalhar em conjunto. A massa é passiva, o comum é ativo. Estão dadas condições para um pós-homem-massa, integrante de uma humanidade-rede, diversa, amalgamada, em que aos traços da homogeneização cultural são acrescentados uma heterogeneidade viva de indivíduos em rede, formando coletivos que pensam o comum a partir da contribuição efetiva, ativa e crítica de seus integrantes. A esses está colocado o problema de saber a que se ater e compreender o “tema de nosso tempo”. Também se pode falar na necessidade de construção de uma outra ideia de Estado, de partidos e ideologias, não ortopédicas (como criticava Ortega), mas também não ausentes a ponto de permitir o laissez-faire do século XIX, o liberalismo econômico (que ele também criticava pela substituição que este fazia dos valores, por preços) tomar conta da cultura. É tempo de falar sobre as condições de possibilidades da superação da dicotomia massa-minoria abordada por Ortega pois, como as condições da análise de Ortega mudaram - as circunstâncias técnicas se transformaram - a pedagogia social e o papel das minorias mudam também. Precisamos de uma síntese nem horizontalista (massa) nem verticalista (minoria), mas uma espécie de diagonal provocadora de sínteses e convergências: é a era do “e”, das conjunções. O desafio é similar ao que Ortega colocou-se: o de não ser binário, idealista ou realista, nem racionalista nem vitalista, nem eu nem circunstância, mas amálgama de um e outro. Dessa maneira, a tensão massa-minoria das sociedades, pela descentralização dos meios de produção e reprodução da cultura, traz outro sentido: a pedagogia necessária não é aquela de poucos homens autênticos, nobres, seletos e esnobes do início do século XX, atuando sobre a massa, mas uma vanguarda formada por pessoas conectadas em rede no mundo todo, capazes de liderar processos locais e globais de combate à unidimensionalização do mundo, à massificação e à homogeneização cultural. Autênticos, pode-se dizer, por professarem e viverem valores vitais, colaborativos, por trabalharem com uma razão com mais substância que a razão instrumental, físico-matemática. Não sabemos o que Ortega pensaria disso, hoje. Talvez não concordasse com estas conclusões. Mas, como pensar era, para ele, aventura de entusiasmo raciovital, assumimos seu raciovitalismo como ponto de partida para a aventura da razão. Não como ponto de chegada, o que seria também um ortopedismo que, seguramente, Ortega desaprovaria. Assim, tendo como base o “nem racionalismo, nem vitalismo: raciovitalismo”, de Ortega y Gasset, temos a possibilidade de pensar em um programa raciovitalista para a superação do problema da massificação nos tempos de hoje. Tempos em que vivemos um híbrido de era pré, industrial, e pós-industrial, e em que a homogeneização cultural e a padronização de comportamentos começam a ser contestadas em todos os cantos do mundo onde haja acesso à internet e sua consequente possibilidade de ação em rede, não do ponto de vista utilitário e consumista, mas cultural: a cultura digital. Neste sentido, mais que a conexão física, obviamente fundamental, o que importa é a cultura de rede, a cultura colaborativa, pós-industrial e pós- massificante que vem sendo construída, pessoa a pessoa, nessas conexões. Em nosso entendimento ela, a cultura digital, é condição para revitalizar a própria ideia de cultura, pesadamente homogeneizada. Ela é condição de possibilidade de se desmassificar, “destampar” o vital da diversidade cultural, das culturas populares, do interior dos países (e seu conteúdo extremamente valioso do ponto de vista de uma metáfora daquilo que se tem dentro, que tem entranha, que tem conteúdo, em vez do superficial, ostentatório, distintivo ou apenas mercadológico da cultura de produção fordista para consumo de homens-massa). Há uma razão sendo produzida nas redes, que não é apenas técnica nem puro vitalismo irracionalista, mas uma razão que vem da vida (de milhões de vidas de indivíduos eu-circunstâncias em rede), com um potencial enorme de trazer novos valores à tona. Se, como disse Ortega y Gasset no início do século XX, o sujeito é um eu-circunstância, devemos considerar a circunstância atual de intensa conectividade ponto a ponto. Nessa, não mais pela pedagogia social de minorias, mas pela exemplaridade da participação ponto a ponto, o homem-massa da sociedade massificada tem condições de se tornar um pós-homem-massa, desde que utilize as novas tecnologias para gerar autonomia, em vez de se utilizar dos mesmos para gerar heteronomia, homogeneização e consumo massificado. O ambiente digital provoca, com suas possibilidades, o homem a fazer novas narrativas de si próprio, em termos de valores, propriedades, ideia de si e da sociedade etc. O digital é uma nova circunstância. Se o homem-massa é produto da era industrial que gerou o chamado “fenômeno do pleno”, o consumo em massa e a homogeneização da cultura, é preciso pensar se as mudanças tecnológicas do nosso tempo, com a emergência da internet e das redes também não dão condições para uma superação do problema criado pela relação desresponsabilizada do homem com os produtos da técnica daquela época, bárbaros a colherem seus produtos, como em estado de natureza. Conseguirão os sujeitos de hoje utilizarem estes ambientes de rede de forma a gerar autonomia e sujeitos-redes, indivíduos-redes, eu-circunstâncias-redes, ou, ao contrário, o rearranjo do mercado conseguirá repor o quanto de elemento homogeneizador necessita para a sociedade continuar sendo massificada?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Nem analógicos, nem digitais: digitalógicos!

Numa das mais lúcidas intervenções de Boaventura de Sousa Santos no Fórum Social Temático 2012, o sociólogo português disse que a ciência política precisa trabalhar hoje com uma terceira categoria, para além da representatividade (partidos e estado) e dos movimentos sociais. É a categoria de "presença". Nesta, ele agrupa uma boa parte dos jovens atuais, que organizam via redes sociais presencialidades, multidões em uma praça, uma rua, em frente a uma loja para protestar, cada vez mais sem a mediação das duas primeiras categorias. Indagado sobre se esses movimentos novos não estão muito distantes dos movimentos tradicionais e se sua pauta poderia ser considerada de esquerda, Boaventura respondeu que o que vê é, na verdade, os próprios movimentos tradicionais, os sindicatos e os partidos de esquerda de costas para esses novos movimentos. Para Boaventura, o problema é que os movimentos tradicionais não têm o costume de se relacionar com a sociedade em geral (com a maioria das pessoas), mas restringe seu interlocutor à chamada sociedade civil "organizada". "A imensa maioria das pessoas não está organizada em partidos, sindicatos e movimentos", lembrou Boaventura. E, com as novas tecnologias, organizanm suas próprias formas de ação. Além disso, considera as pautas desses movimentos de jovens indignados mais à esquerda que a de muitoa partidos e governos progressistas. Portanto, um diálogo precisa ser buscado com eles, pelos movimentos tradicionais, sob pena destes se cristalizarem e diminuírem seu poder de articulação com a realidade das ruas. Boaventura dividiu o tema entre política dos corredores (burocráticos da representação) e política das ruas (na presencialidade coletiva de indivíduos). No final de sua exposição, disse a ele que há anos falamos no FSM que entre os verticalistas (tradicionais) e os horizontalistas (novos movimentos), precisamos de um meio termo com o que há de positivo dos dois. Chamei isso jocosamente de "Diagonalismo", com o qual concordou rindo. O mesmo se passava dentro do FST entre os analógicos e os digitais: nem uma coisa nem outra é o que precisamos, mas um terceiro, mais sistêmico: digitalógico, ou o que seja. FSM digitalógico Caso não se recicle depois deste janeiro de 2012, o Fórum Social Mundial poderá passar a ser considerado um espaço de mediação entre movimentos e alguns grupos de Ongs e não de ação direta, como os mais exaltados da Primavera Árabe esperam de uma ação política que “mude alguma coisa”, nem que seja derrubar um ditador sem saber o que colocar em seu lugar. Para o o FSM seguir sendo considerado legítimo espaço de articulação da sociedade civil global, ele não pode se “cristalizar” nem fazer de sua história uma imanência tautológica e autoreferente, ineficiente para gerar as transformações necessárias. E precisa de novos pontos de contato com os mais jovens. Assim como a esquerda como um todo necessita. Poucos desses jovens, conectados que estão ao infinito da produção estética e simbólica via rede, podem ser atraídos para a ação política pela antiquada estética – dos sindicatos, dos partidos e do próprio Estado. Para esses jovens, a política se confunde muito com a fruição simbólica, com comportamento, a sensação romântica de que são sujeitos dentro de uma coletividade e que fruem da ação direta como se estivessem em grandiosos shows de rock, em grandes happenings. Trata-se de um desafio ante uma tradição política que, por pragmatismo ou preconceito de que se deve disputar a infraestrutura e não a estrutura (a cultura), exageradamente se afastou da cultura e da arte. Como se, em se tratando de humanos, a cultura não fosse a própria infraestrutura e a realidade. Para Carlos Fuentes, a realidade é “o real mais o imaginário”, para Ortega y Gasset o homem é o “animal simbólico” justamente para quem o “supérfluo é o necessário”. No FST, participamos do GT de Cultura para a realização do Festival Internacional de Cultura Livre (Ficlivre), que dialoga diretamente com esta estética, por meio da música, do teatro, circo, literatura, cinema e artes visuais. Arte, cultura colaborativa e política. Onde achamos que há um caminho a ser trilhado para o encontro entre as duas pontas.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Construindo um Estado-rede

O Fórum Social Temático de 2012 gerou uma oportunidade para o FSM e para o Rio Grande do Sul. Com esta nova orientação do FST, abrangendo muito mais que as áreas de justiça social e ambiental, fomos também chamados a ampliar, como Estado anfitrião deste encontro, nossa participação para além das áreas de relações internacionais, cultura e meio ambiente. Uma das ações muito concretas e que emergiram das contribuições de nossa experiência atual foi o Gabinete Digital. O governo do RS, como gerador de uma ideia positiva de Estado, um “Estado-rede”, está contribuindo com esta iniciativa para superar a dicotomia atual, em que a sociedade parece de um lado e o Estado de outro. No FST 2012, mostramos ações que compõem o nosso sistema de participação popular, com o Orçamento Participativo, o Planejamento Plurianual Participativo, o Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico e Social, o Gabinete Digital, as dezenas de conferências já realizadas em todas as áreas, os colegiados setoriais de cultura e outros instrumentos de que o governo gaúcho se utiliza para fazer um Estado cada vez mais sob controle público e em relação mais direta com o cidadão. Não um estado ortopédico, nem um estado mínimo, ausente de suas obrigações, mas um Estado-rede. Em rede e capaz de encantar para a política, com novos protagonistas, de maneira compartilhada. Sem a arrogância do Estado vertical e sem diálogo, é uma mostra de um Estado generoso e atento ao que esses movimentos reivindicam. Diminui-se, assim, a distância formada entre esses grupos e as instituições do Estado, de forma a evitar sua instrumentalização por interesses não-democráticos. Um Estado-rede pode ser uma resposta adequada a um momento que precisa de sínteses e de alternativas para seus profundos dilemas. Não há dúvidas de que frutificou a experiência porto-alegrense e de que esses jovens, hoje com 17, 18 anos, crescem tendo como referência o altermundismo e “o espírito de Porto Alegre” mais do que a cultura política imediatamente anterior, marcada pelas experiências do socialismo real, o excessivo corporativismo sindical, as verticalizações dos partidos e sua experiência de Estado: o “Estado providência das empresas” do neoliberalismo. Na América do Sul, ao longo dos últimos dez anos e liderados pelo Brasil, praticamente todos os governos, excetuando-se atualmente Chile e Colômbia, se orientam conceitualmente muito mais pelo chamado “Consenso de Porto Alegre” do que por qualquer outra fórmula pré ou pós dissolução do socialismo real. Atualmente, esses governos constroem pouco a pouco uma ideia de Estado mais horizontal e comprometido com mudanças sociais, a partir de práticas que ganharam força e visibilidade no Fórum de Porto Alegre. Nem horizontalista, nem verticalista, mas o que há de positivo entre esses dois vetores. Nem moderno, nem pós-moderno, mas uma superação da dicotomia para um estado neomoderno ou ultramoderno. Como aproveitar este momento pós-fórum para aprofundar uma ideia positiva de Estado, principalmente entre as populações mais jovens? Este é, em termos políticos, o tema do nosso tempo.

Cultura hacker e ação política

Organizados pela internet, os novos movimentos trazem em comum uma crítica radical, horizontalista não apenas ao mercado, mas a muitas estruturas de mediação entre os cidadãos: estão no foco das insurgências não apenas líderes políticos, mas a mídia, os partidos, os sindicatos, a indústria cultural e o próprio Estado. A tecnologia que se desenvolveu no último período e apropriada por jovens estudantes e desempregados, está sendo usada, neste momento, para hackear, ou seja, para “fazer truques”, sabotar e reunir forças para exigir mudanças neste próprio sistema, a partir do que consideram “o calcanhar de Aquiles do capitalismo”: a cultura colaborativa. Com a cultura da colaboração e do compartilhamento, esses ativistas desvalorizam a ideia central do capitalismo: a própria ideia de acúmulo e de concentração egoísta, tanto de capital privado, quanto de informação e de copyrights restritivos. Ao desenvolverem, via softwares e plataformas livres, mas também pela comunicação livre e a cultura livre geram uma riqueza paralela ao poder instituído, maior quanto mais disponível para todos. Invertem a proposição e colocam-se, no campo cultural-comunicacional, não contra a propriedade privada, mas a favor da propriedade privada para todos, o que os meios de reprodução, hoje, infinitamente mais desenvolvidos tecnologicamente, são capazes de gerar, se se desenvolverem, não como ferramentas digitais de inclusão ao mundo capitalista, mas como ferramentas para gerar uma "cultura digital". Uma vez aberta a tampa da caixa de Pandora do mundo digital, um poder cresce a cada dia, liberando, assim como a mítica caixa, o que há de bom e o que há de mau em corações e mentes contemporâneos. Há inúmeros aspectos positivos e há muitos bastante preocupantes. Um destes é a desconstituição de uma ideia positiva de Estado, necessária para se garantir a própria sociedade mais justa a que esses movimentos almejam. Outras questões relacionam-se à possibilidade real de se mudar algo com este método de mobilização, até o momento praticamente sem consequências a não ser as destituições e quedas, cujas peças são rapidamente substituídas. Desta crítica se produzirão alternativas para um mundo melhor? Sem partidos e sem Estado será possível mudar algo? Claro que não. Mas que Estado? Que partidos? Que esquerda? Afinal hoje, por sua lenta absorção, quando não por sua total incompreensão do que está acontecendo, a esquerda não deixa de ser alvo de críticas dos indignados, que não reconhecem nas práticas de seus partidos e governos, muitas vezes encastelados, a nova cultura política que praticam ponto a ponto, “pessoa a pessoa”, sem mediação. Em Wall Street, qualquer occupy pode falar nos palanques improvisados, desde que não seja em nome de um partido político. Da direita ou da esquerda. Crise da representação Na ponta disso está uma profunda crise da representatividade, da mediação. A crise de legitimidade chegou ao ponto de, no caso dos Anonymous, com suas máscaras de Guy Fawkes (nome de um soldado inglês do século XVI, envolvido em uma conspiração para explodir o Parlamento) os que apareceram na mídia como líderes foram expulsos do grupo. Não à mediação, não aos líderes! É seu slogam. E isso tudo vai muito além do Estado e dos agrupamentos sociais, chegando ao próprio indivíduo. Exigem mais cidadãos e menos indivíduos, mais coletividades e menos individualismo, mais participação e menos representação. E assim como querem do Estado, desejam que o político do século XXI seja menos autorreferente, mais em acordo com as exigências estéticas de um novo momento, em que o poder de vaiar e acertar tomates nos homens públicos é exercido com um apertar de teclas do celular, via Facebook ou Twitter. E se não são frutas a manchar de realidade a camisa, são milhões por vez a manchar nomes e trajetórias artísticas e políticas, para sempre. Um dos perigos da crise de representação é o que já se observa no Brasil: uma tentativa de direcionamento conservador dos “indignados brasileiros”, numa tentativa de “colar” a essa “indignação” um vago “basta de corrupção” usado politicamente, um “que se vayan todos” cheio de potencial despolitizador e eleitoreiro. A capa de uma das últimas edições de 2011 da revista Veja estampa como “ideia fora do lugar” inclusive uma máscara de ativista anonymous, com uma chamada sobre os de motivos para o brasileiro se indignar, obviamente que não contra o sistema, que inclui a mesma mídia conservadora, mas contra uma ideia de corrupção que, infiltrada na crítica ao Estado dos horizonalistas, tenta corromper, a partir de um viés neoliberal, a ideia de Estado, no Brasil. Uma inesperada e falsa aliança grande-imprensa-e-cara-pintadas? Tenta-se, assim, no Brasil, colocar os indignados não contra o modelo capitalista global, mas uma “sociedade civil” indignada contra o “governo estatizante” de Dilma e Lula. Não há dúvidas de que os jovens brasileiros podem perder o trem da história se não se ativerem aos verdadeiros temas de seu tempo, afinal, qual geração foi capaz de utopia parecida à Primavera Árabe? O Maio de 1968? Os antiglobais de Seatle de 1999? Os altermundistas do FSM reunidos em Porto Alegre, Mumbai, Caracas, Nairóbi, Belém, Dacar? Mas a esquerda brasileira como se sente em relação a esta tarefa? Consegue dialogar com os jovens outrora vistos como consumistas passivos e individualistas fúteis, campo no qual o hedonismo capitalista se desenvolve com mais velocidade? Conseguirá reconhecer os pontos positivos desta indignação, renovando, inclusive a forma de ser e de falar com esses grupos, sem a verticalidade arrogante daqueles que “realmente” se indignaram contra o sistema? O certo é que, se não novo, algo diferente está aí, pelo menos no que se refere a sua intensidade. O próprio FSM já notou isso e, sob o risco de parecer anacrônico em relação a esses movimentos, reorganizou seu evento, ocorrido há poucos dias. Muito mais rápido do que as decisões do Conselho Internacional do Fórum, o mundo está impondo uma pauta nova. Assim, o até então chamado Fórum Social Temático Justiça Social e Ambiental passou a se chamar, recentemente, Fórum Social Temático Crise Capitalista, Justiça Social e Ambiental. Reflete, dessa maneira, uma necessidade de o Fórum Social Mundial estar atento ao que está ocorrendo atualmente no mundo sem ser ultrapassado pela realidade. A crise ambiental é crucial e precisa ser enfrentada, mas há uma crise econômica e uma crise de representação, de democracia, que necessita de respostas da mesma forma urgentes. Neste momento responder a aspectos pontuais da crise ambiental é insuficiente.

Construindo um Estado-rede II

O ano de 2011 foi marcado por intensas mobilizações, principalmente de jovens diretamente afetados pela atual crise, fruto de um modelo de acumulação que se mostra incapaz de incluir, de maneira digna, a maioria da população. No rastro da Primavera Árabe (Tunísia, Egito, Líbia e outros) no norte da África, uma onda de mobilizações se espalha. Espanha, Grécia, Inglaterra, Itália, Portugal, Estados Unidos, Chile e diversos outros países sentem os efeitos de uma força que tem desmanchado no ar lideranças outrora sólidas, seja no mercado, seja no poder político. Inclusive de maneira bárbara, com as tintas das revoluções, testemunhamos, online, a queda de presidentes, ditadores e primeiros ministros, alguns até então tidos como inabaláveis lideranças de países importantes para o centro do poder financeiro. Em menor ou maior grau de acirramento, se alastraram por dezenas de cidades de todos os continentes os sintomas de um mal-estar no modelo econômico, social e político em andamento. Pois esses movimentos, ou integrantes deles, estiveram em Porto Alegre, de 24 a 28 de janeiro de 2012, no Fórum Social Temático Crise Capitalista, Justiça Social e Ambiental. Presencialmente ou participando via internet. Durante o FST, o Conexões Globais 2.0 - Festival Internacional de Cultura Livre (FicLivre), realizado na Casa de Cultura Mario Quintana, proporcionou, em oito webconferências e dezenas de oficinas, conferências e desconferências, um diálogo global entre integrantes desses movimentos e o FST 2012. O que virá pela frente? Além do encontro preparatório à Rio + 20, de que maneira o Fórum Social Mundial vai se articular com a pauta relativa à “crise capitalista” atual? A cultura digital é uma arma para ampliar a democracia real? Como articular analógicos e digitais para um maior poder de transformação dos movimentos? Qual o papel dos Estados, sindicatos e partidos no mundo atual? Como lidar com a categoria de presença (conceito de Boaventura de Sousa Santos, e que o sociólogo português posiciona como nova categoria da ciência política hoje, ao lado de movimento social e representatividade)? Como fazer para que haja uma maior articulação entre a presencialidade dos indignados (e a pós-presença na praça), a força dos movimentos sociais e o poder dos Estados? Questões como essas foram trazidas, mas obviamente não respondidas em tão pouco tempo. Mas ficaram como perguntas a animar movimentos, coletivos e indivíduos que vieram, como vêm há anos a Porto Alegre e ao Rio Grande para juntos construírem esta plataforma de conceitos e práticas para transformações locais e globais, laboratório de políticas sociais, econômicas, ambientais, culturais e tecnológicas inovadoras. Nova cultura política Nas Américas, as mobilizações têm os Estados Unidos - a nação mais poderosa do planeta, mergulhada num clima de tensionamentos populares por transformações do modelo financeiro. O movimento Ocupe Wall Street vem gerando, para além do território estadunidense, uma série de acampamentos. Já são mais de 80 países. No Brasil iniciaram-se “ocupações anticapitalistas” na Cinelândia, centro do Rio, e no Anhagabaú, zona central de São Paulo. Em diversas datas, como o 18 de outubro de 2011, organizaram-se ações globais anticapitalistas em cada canto mostrando em idiomas e cores locais aspectos diversos de uma mesma crise civilizacional. Seja na Plaza del Sol, na Plaza España, em Wall Street, em frente do Teatro Municipal do Rio de Janeiro ou sob o Viaduto do Chá, os acampamentos, autogestionários, mostram em suas faixas e cartazes que os jovens acampam por paz com justiça social, por democracia real, um mundo ambientalmente, economicamente e socialmente sustentável, feito a partir da ação cidadã em rede, da cultura colaborativa, do compartilhamento de bens culturais, da democratização da mídia, da diversidade ambiental, da diversidade cultural, da livre orientação sexual, da liberdade de ir e vir, de um controle global dos fluxos de capital volátil, e de muitos dos outros conceitos de uma “nova cultura política”, que há mais de 11 anos são discutidos e espalhados pelo mundo a partir das diversas edições do Fórum Social Mundial, iniciado em janeiro de 2001, na capital gaúcha. A base desta nova cultura política é a democracia participativa, a economia solidária e a cultura colaborativa. Os jovens espanhóis, ao conclamarem seu “Democracia Real Ya”, têm mostrado em seus cartazes na Plaza del Sol, como um de seus nortes é o orçamento participativo de origem porto-alegrense. E sua crítica, não apenas ao governo, mas ao Estado, talvez possa encontrar algumas das respostas que procuram nas ferramentas que o atual governo do RS está desenvolvendo e já aplicando. Em diversas frentes, temos gerado uma ideia de Estado mais participativo e em rede com o cidadão. Este encontro de indignados, mesmo que virtual (dez mil pessoas passaram pela CCMQ durante o Conexões Globais; 100 mil participaram pela web!) nos possibilitou um momento de importantes reflexões e se consubstanciou em uma enorme oportunidade de encontrar pontos de contato entre ativistas, movimentos sociais e um governo progressista, como é o caso do governo Tarso. Para onde vão estes movimentos, depois disso tudo? O Fórum Social Mundial acompanhará esses movimentos ou poderá se cristalizar como uma instância de mediação, bem menos atrativa que a ação direta da atual orientação do altermundismo horizontalista? Não sabemos ainda que impactos esses movimentos terão para dentro do próprio FSM, depois do FST 2012, nem para Porto Alegre, para o Rio Grande e para o Brasil. Mas é preciso se preparar para que o melhor disto nos ajude na construção de um Estado mais atento à vida nas ruas, menos arrogante em sua relação com a população, um Estado-rede.

sábado, 14 de janeiro de 2012

O silêncio dos quadros

Cada vez que eu entro em um museu e presto atenção nos quadros o que mais me impressiona, além das formas e das cores, é o silêncio deles. O mundo sem palavras dos quadros, mesmo sempre um mundo muito mais eloquente que o mundo real. Imediatamente abaixo da realidade, expressivo em suas composições de chaminés, marias-fumaças entrando na gare cheia de neve, campos de flores amarelas, mulher andando ao sol sob uma sombrinha, navio deixando o porto, um beijo longo e retorcido. E o silêncio. A substância dos quadros não é a cor, nem a forma, que mudam sempre de um para outro, mas o silêncio que em todos é o mesmo, absolutamente o mesmo – foi o que aprendi.

Auto-retrato com neve

O esboço da minha cabeça foi desenhado a lápis, até resultar um homem de cabelos ralos e com barba apenas no queixo, de olhos arregalados e cheio de bolsas, como os de um cavalo. A boca eu representei levemente aberta, como numa foto em que os movimentos são congelados sempre antes ou depois do tempo - sem a ilusão da boca fechada. Depois este mesmo esboço foi escondido aos poucos pelo óleo denso, em pinceladas que ora me desfiguravam, ora traziam os pelos de uma orelha ou uma ruga da testa para a tela. Optei por um branco pálido e levemente bege em alguns pontos da face, a dar a impressão da cor da pele pouco exposta ao sol. Dei expressão às rugas abaixo dos lábios com mais força do que a todos os outros traços, porque queria que resultassem graves, ou desenhadas pelo escândalo, como dos leitores de Bernhardt ou Cioran. Atrás de mim surgiu um alvo campo com um caminho curvo e galhos secos brotando da neve. A cada pincelada parecia menos eu, mas era mais eu.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Nenhum ser humano é ilegal




Foto numa das ruas de León, norte da Espanha, na época em que morava lá para estudar. Lá conheci o pessoal do Mal: Movimiento Antiglobalización de León (MAL).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O artista é um sistema particular de associações

"Como o centro natural da perspectiva para todo o homem é o seu eu, sua série de estados de consciência - e o eu reduz-se a um sistema de idéias e de imagens associadas entre si de uma certa maneira -, segue-se que ver um objeto é fazer com que a imagem desse objeto entre em um sistema particular de associações, é envolvê-lo em um turbilhão de imagens e de idéias. Se esse turbilhão interior - que não é outra coisa que o eu do artista - encontra-se bastante poderoso, bastante amplo e bastante luminoso, tudo aquilo que for carregado por ele será penetrado de movimento e de luz. Uma alma vulgar, ao contrário, terá um olho vulgar e uma arte banal.
Guyau, Jean-Marie (2009), A Arte do Ponto de Vista Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, p. 199.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Orteguianas sobre a novela

Ortega y Gasset sobre a ação, na novela:

5) "Não na invenção de ações, mas na invenção de almas interessantes vejo eu o melhor porvir do gênero novelesco".

Gênero vagaroso:

6) "Não é o argumento o que nos agrada, não é a curiosidade por saber o que vai acontecer a fulano o que nos deleita. A prova disso está em que o argumenro de toda a novela se conta em muito poucas palavras. Então não nos interessa. (...) Necessitamos que o autor se detenha e nos faça dar voltas em torno de seus personagens. Então ficamos satisfeitos ao nos sentir impregnados e como que saturados deles e de seu ambiente, ao percebê-los como velhos amigos habituais, de quem sabemos tudo e ao apresentar-se nos revelam toda a riqueza de suas vidas. Por isso é a novela um gênero essencialmente retardatário - como dizia não sei se Goethe ou Novalis. Eu diria mais: hoje é e tem que ser um gênero vagaroso - exatamente o contrário , portanto, do conto, o folhetim e o melodrama." p.41-42