terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mutantes no FSM em Canoas

Show dos Mutantes em Canoas, durante o Fórum Social Mundial dia 26 de janeiro. Mais de 35 mil pessoas no Parque Esportivo Eduardo Gomes, numa noite encantada.


domingo, 17 de janeiro de 2010

Cidades Criativas de Periferia no FSM 2010

O debate cultural e, principalmente, o das Cidades Criativas de Periferia – que estamos lançando nesta edição descentralizada do FSM – terá atividades marcantes no Fórum Social Mundial 10 Anos – Grande Porto Alegre. Da Capital gaúcha a Sapiranga, passando por Novo Hamburgo e São Leopoldo, eventos de relevância internacional ocorrerão na linha do Trensurb. Essa mesma linha que diariamente leva 170 mil trabalhadores para as fábricas da região receberá nos cinco dias do Fórum a Casa Cuba e a Reunião Pública Mundial de Cultura em São Leopoldo; uma extensa grade no Acampamento Intercontinental da Juventude em Novo Hamburgo; discussões sobre cultura no Fórum das Autoridades Locais de Periferia em Canoas, e muitas outras iniciativas em maiores ou menores dimensões. Em Canoas, teremos, entre as mais de 230 atividades auto-organizadas da cidade, dezenas relacionadas com o tema da cultura, principalmente no recorte “cultura de rua”, “cultura de periferia”, “cultura livre” ou “independente”.
Em meu entendimento, trata-se, de um resultado concreto do "paradigma da política cultural", em curso no Brasil desde 2003. A partir desse paradigma, a cultura não é mais vista apenas em um eixo, vertical (estético, das belas artes) ou horizontal (ético, democratizador). Ultrapassou-se esta perspectiva binária, cartesiana e simplificadora. Complexificou-se a idéia de cultura, vendo-a com seus desdobramentos em três eixos: cultura como direito de cidadania, cultura como economia e cultura como valor simbólico, criativo. A partir dessa tridimensionalidade, os eixos horizontal e vertical se complementam em vez de se excluírem.

Um problema é que, a duras penas, este paradigma se espalha pelo Brasil e ainda está heterogeneamente distribuído no território nacional. Há mais tempo desenvolvido em algumas capitais, o referido paradigma não é uma realidade na totalidade dos estados brasileiros, muito menos nas cidades periféricas, sejam elas as das regiões metropolitanas ou do interior dos estados.

Apesar disso, em distintos pontos do mapa do Brasil, a cultura começa a ser vista como "coisa séria", para muito além do entretenimento, do ornamento fútil ou do elemento ostentatório. E com a diretriz da descentralização das políticas culturais em voga, agora também as periferias do Brasil inteiro começam a saber que cultura é, na verdade, um poderoso instrumento de qualificação do ambiente social. Cultura gera instrumentos fundamentais para a transformação, pois amplia o leque de repertórios, gera coesão/oportunidades/sentido/portas de saída/agregação e espírito crítico. E isso, para as populações e territórios de periferia, historicamente à margem no que se refere à plena garantia de seus direitos sociais, ambientais e culturais, ganha proporções ainda mais sérias e urgentes. Acesso a bens e serviços culturais é tão necessário quanto o acesso à saúde e educação. Apenas as populações não demandam tanto por cultura nas periferias como nas capitais, porque nesses territórios foi menos desenvolvida (via política cultural) a consciência dos direitos culturais. Expresso em nossa Constituição, a garantia de tais direitos é dever do Estado desde 1988.

Mas aos poucos essa realidade vai se modificando nas periferias, por meio da ação de secretarias de cultura comprometidas com as transformações. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, já podemos contabilizar ótimos exemplos, tanto locais como na excelente articulação regional que possibilitou a criação, em 2009, da Rede de Dirigentes Culturais da RM de Porto Alegre. Com certeza um dos grandes resultados dessa ação em rede é a força que a cultura obteve na programação do FSM em nossas cidades. No caso de Canoas, em cinco meses de intenso trabalho entre governo e sociedade, emergiram na programação do FSM a visão dos jovens das periferias e suas práticas culturais. Foi assim que ganhou, de vez, a programação do FSM em Canoas o tema da cultura de periferia.

Ampliação do capital cultural

O processo de construção da grade de atividades do FSM nos ensinou muitas coisas. Quero destacar alguns elementos que brotaram das dezenas de reuniões desde o intenso inverno gaúcho de 2009 até o início de janeiro de 2010.

- A ampliação das possibilidades de fruição e expressão simbólicas das camadas mais à margem na sociedadade é vista pelos artistas de Canoas como condição para a transformação das realidades de violência e de falta de perspectivas nas quais estão mergulhados - mas, diferentemente de outros nas mesma condição, não de maneira passiva. Agem contra essas realidades. E com criatividade.

- Por meio da ampliação de seu capital simbólico e cultural, vão transformando suas vidas e as vidas de suas comunidades. Na área da leitura, dez bibliotecas comunitárias nos bairros são exemplo vivo dessas ações exemplares e que se complementam com dezenas de grupos de capoeira e de hip-hop e as mais de 100 bandas de rock da cidade. A articulação entre elas é vista por eles como uma necessidade urgente e de grande valia para o desenvolvimento cultural do município.

- A consciência de sua condição vem a esses grupos por meio da ampliação de seu repertórios e visão de mundo. E é isso o que eles querem também para seus pares. É nesse ponto que o eixo estético, vertical, das sensibilidades e criatividades individuais, toca o ético: o eixo horizontal, coletivo, dos costumes a serem modificados. Assim é que bandas independentes se organizam, tocam, gravam seus próprios cds (já estão na quarta coletânea), disponibilizam na rede, realizam suas festas de lançamento e discutem cultura livre. Formam uma rede de ação solidária, participativa, que tem servido de modelo a coletivos de outras regiões do Estado.

- O recente desenvolvimento da política cultural na cidade (nossa secretaria tema penas um ano) é visto como elemento fundamental para gerar a consciência de que a cultura é direito de cidadania e que não pode ficar restrita (como direito) aos bairros ricos da cidade nem aos bairros ricos das capitais, onde se acumulam os equipamentos culturais e os recursos financeiros.

- A universalização do acesso é pauta fundamental para a geração de uma sociedade mais livre, criativa e socialmente justa.

- Queremos desenvolver, de maneira participativa, o modelo das cidades criativas também nas periferias das grandes cidades (e do interior dos estados) e sair da condição de populações relegadas ao papel de mão de obra barata para o trabalho pesado da geração de bens.

A emergência das periferias
Formadas na virada do Brasil agrário para urbano/industrial dos 1960 para os 70, com o desenvolvimentismo capitalista brasileiro de então, as cidades das RM têm a marca do trabalho duro na indústria (frequentemente metalúrgica) e os escassos tempos para a fruição e expressão culturais. Além do trabalho duro, essas populações precisam ser atendidas em seus direitos cotidianos à dimensão simbólica, estética, afetiva – e não apenas ao seu arremedo via indústria do entretenimento massivo e comercial, onde se faz o achatamento e a mercantilização das sensibilidades e das criatividades.

Não somos Toronto, nem Berlim, nem Barcelona, as chamadas “cidades criativas”. Mas Canoas, São Leopoldo, Guarulhos, Getafe, Nanterre, Banfield. E tantas outras que se encontrarão em Canoas de 26 a 28 no Seminário Metrópoles Solidárias de Periferia, da rede Falp. Também criativos, quando se se dá conta da riqueza das produções dessas localidades (e que poderão ser conferidas no Fórum Social Mundial 2010 Grande Porto Alegre.

A emergência das periferias se dará em um Fórum que tem a cara das periferias, pois é o primeiro que acontece para além de uma capital de estado ou de país, como são os casos das historicamente combativas Porto Alegre, Mumbai, Caracas, Nairóbi e Belém. Agora, também Canoas, Gravataí, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Sapiranga, Santa Maria e muitas outras entram no mapa altermundista, no mapa do contrapoder global, como cidades que produzem alternativas para a construção de um mundo melhor. Pois nessas cidades também existem – e muitas – ações cidadãs em rede, economia solidária, democracia participativa, geração de bens públicos. E cultura livre.

Aqui, em Canoas, teremos durante o FSM, uma mostra de como as distintas linguagens artísticas podem se desenvolver tanto no eixo vertical, estético, quanto no horizontal e empoderador, com os Pontos de Cultura, o Rock Social Mundial, o Hip-hop Sem Fronteiras, a Rede Sul-Brasileira de Teatro de Rua, com 15 espetáculos em toda a cidade, o Espaço Interplanetário de Cultura Livre, o Seminário Litero-ativismo: Leitura para um outro mundo possível, a Mesa Culturas Indígenas, a Mesa Cidades Criativas e Solidárias de Periferia e o lançamento do edital nacional de Hip-Hop, pelo Ministério da Cultura, além de dezenas de outras discussões e ações culturais que ocorrerão de 25 a 29 no Parque Esportivo Eduardo Gomes e no Centro Universitário La Salle. Sem falar nos shows maiores que, desta vez, ocorrerão em Canoas, no PEG, com Tom Zé, Mutantes, Chico César, GOG, Nação Zumbi, Racionais Mcs, Daniel Drexler e muitos outros. Esperamos a todos em nossa cidade, cidade de periferia integrante do Território Social Mundial.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O mundo perde em Porto Alegre 2

"Para os leoneses, assim como muitas outras pessoas no mundo todo (em Mumbai, na Índia, por exemplo, onde estive por ocasião do 4º Fórum Social Mundial) Porto Alegre representava a esperança de um mundo melhor, a construção de um planeta com menos exploração, pacifista, respeitador das diferenças étnicas, sexuais e culturais, um mundo mais justo e igualitário, ponto de resistência, no sofrido sul do planeta, à barbárie capitalista que devasta o mundo (basta conhecer a América Latina e a Índia para saber do que estamos falando). Porto Alegre tinha um diferencial. E estava no mapa do mundo por ser diferente de todas as experiências colocadas em prática até então. Agora, é igual a qualquer outra (...)".

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O mundo perde em Porto Alegre 3

A partir de 1999, com as manifestações contra a OMC, em Seatle, nos Estados Unidos, uma boa parte do mundo passou a viver um clima de mudança. Em 2001, Porto Alegre, uma pequena capital de um estado brasileiro, começou a ser vista como a grande possibilidade de “transformação do planeta”, em algo melhor. Aqui, a Frente Popular chegou ao poder e pôs em prática uma maneira revolucionária de dar poder aos habitantes da cidade.
Com o Orçamento Participativo, subverteu regras que não mudavam em termos de democracia desde, provavelmente, a Grécia Antiga. A democracia participativa e diversos outros mecanismos que possibilitaram uma verdadeira apropriação pública do Estado, com arrojadas políticas de inversão dos investimentos, fizeram de Porto Alegre um lugar especial. A ponto de, em plena ressaca neoliberal, dos anos que se sucederam à queda do muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, Porto Alegre despontar no cenário mundial como a “inventora” da democracia que a esquerda ainda não tinha, uma democracia de qualidade, com substância, de alto impacto. O mundo ainda marcava passo no neoliberalismo.
Parecia que Porto Alegre andava no futuro, e inclusive com uma democracia própria. E em nada lembrando o chamado socialismo real de qualquer outro lugar. Mas o que isso significa? Em todo o mundo, a democracia parecia ser uma propriedade do capitalismo, enquanto que o socialismo era o terreno nas totalitariedades. De repente, o mundo descobre que se inventou nos Pampas um tipo de democracia que dava novos ares àqueles que desde que o mundo é mundo lutaram contra a exploração econômica, ambiental, cultural, sexual etc.
Descobriu-se no final do século XX que a democracia participativa vinha dando certo numa cidade grande e transformando a realidade de milhares de pessoas, principalmente as mais pobres, nas vilas, mas também chegando às áreas centrais da cidade. Passaram a vir estudiosos do mundo todo não só para saber do OP, mas das políticas ambientais, educacionais (que geraram um outro Fórum que também foi embora de Porto Alegre, o Fórum Mundial de Educação), gerenciais (um tipo de administração transparente e com diversos mecanismos de apropriação pública do Estado nunca experimentados nesta radicalidade) e outras.

O mundo perde em Porto Alegre

Contribuições para uma análise, escritas em 2004. Ainda atuais, nesses tempos de volta do FSM para Porto Alegre e região... Foi publicada pelo nosso amigo Renato Rovai na Revista Fórum, e em algumas outras. A seguir, partes.


"A possibilidade de o Fórum Social Mundial não ter mais sua sede permanente em Porto Alegre só surpreende aqueles que não entenderam o que estava por trás das eleições municipais dessa emblemática cidade, em que uma coalização de partidos de direita (de conservadores a neoliberais) derrotou a Frente Popular (PT, PC do B, PSB). Não se tratava de mudar ou não um governo exitoso de 16 anos. Não se tratava de fazer um experimento, para ver se a saúde e a segurança melhoravam.
Alguns elementos permaneceram ocultos nas eleições nessa capital de mais de um milhão de habitantes e em que essas áreas são reconhecidamente muito melhor conduzidas que em qualquer outro lugar do Brasil (um país pobre com uma cidade sui-generis, cujos Índices de Desenvolvimento Humano são
comparáveis até mesmo aos de muitos municípios europeus, graças a políticas arrojadas e instrumentos inovadores). Ocultos não apenas dos restantes dos habitantes do planeta, mas dos próprios porto-alegrenses.
Foi um embate entre dois mundos. De um lado o liberalismo econômico, a conservação da exploração do homem pelo homem para acumular lucro. De outro a tentativa de construir um mundo melhor, países afora, inspirada em grande parte na experiência de Porto Alegre, riqueza que muitos porto-alegrenses sequer chegaram a compreender. É isso o que deveríamos ter condições de enxergar neste momento: não o conheceram porque muitas vezes vivem presas de uma fantasia, uma realidade fabricada por poderosos grupos de comunicação locais e seus grupos econômicos aliados.
Não é de hoje que se sabe que o que aconteceu em Porto Alegre nesses 16 anos, e que motivou a vinda do Fórum para cá, é mais conhecido por uma infinidade de pessoas, movimentos sociais, partidos, sindicatos, associações e governos no mundo todo do que pela própria cidade em que tudo isso começou. Basta recuperar o que o maior jornal da cidade dizia do Fórum em seu primeiro ano, posição que gradualmente foi se modificando por força de uma contradição que se apresentava óbvia e ululante à frente dos moradores da cidade. Sempre diminuiu a importância do FSM, reduzindo-o a uma feira, importante para movimentar o comércio e os serviços locais em uma época em que a cidade estava vazia (as férias de verão). Pois bem, essa pouca importância contrasta frontalmente com o que ele verdadeiramente significa, para gente de diversos países do mundo, onde as cidades brasileiras mais conhecidas são Rio de Janeiro, São Paulo. E, desde 2001, Porto Alegre. E apenas essa última é lembrada só por seus aspectos positivos.
Passamos os primeiros seis meses de 2004 na Espanha. Mais de uma vez apresentados, eu e a fotógrafa Ana Paula Stock, não apenas como brasileiros, mas como pessoas que viviam em um lugar especial. Foram muitas as vezes que isso aconteceu. E uma dessas manifestações nos marcou profundamente. Uma amiga, emocionada, dizia a um grupo, em León, cidade no norte espanhol: “Esses são Jéferson e Ana Paula. Eles são brasileiros, mas, melhor ainda, eles são de Porto Alegre”. León é uma cidade de 170 mil habitantes, em Castilla y León, a quase cem quilômetros de Portugal. Uma cidade pequena, mas lá, assim, como em diversos municípios europeus, muitas pessoas não só conheciam Porto Alegre como entendiam o que aconteceu por aqui, talvez muito mais do que os próprios porto-alegrenses, conforme o que ficou expresso nas urnas de domingo (...)”.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O direito à cultura do outro

“Se ao invés de 8 mil policiais, a polícia do RJ enviasse para os morros 8 mil professores, teríamos um verdadeiro enfrentamento da violência”, avaliou ontem pela manhã o cordelista cearense Costa Sena. O músico e escritor esteve em Canoas, visitando a Biblioteca Pública Municipal João Palma da Silva e tocou, gratuitamente, no Calçadão de Canoas dentro da nossa Caravana Cultural, projeto que leva, desde o início do ano, todos os sábados, shows de distintas linguagens para todos os bairros da cidade. A vinda de Costa Sena a Canoas foi possível graças ao convite feito pela Câmara Rio-grandense do Livro para que ele participasse da 55a Feira do Livro de Porto Alegre.
Sena contagiou o ambiente da biblioteca e mostrou aos presentes a riqueza do intercâmbio cultural. Eu chamaria, com Teixeira Coelho, de o direito à cultura do outro. Há tanto tempo negado, de sul a norte, leste e oeste, desde o início do governo Lula, ele vem cada vez mais sendo garantido e realizado em todo o Brasil.

Banco de Livros

Uma grande idéia da Câmara Rio-grandense do Livro (CRL) pode se tornar um instrumento poderoso para a qualificação de acervos de bibliotecas públicas municipais no Rio Grande do Sul. O Banco de Livros é um projeto que utiliza a tecnologia dos bancos sociais (de alimentos, de materiais, de tecidos) no sentido de realizar uma grande campanha de arrecadação de livros que serão destinados a projetos de leitura de todo o Estado. A meta a ser atingida é de 500 mil livros. Aposto que se chega a mais. Parabéns, Waldir da Silveira e equipe da CRL!