terça-feira, 17 de maio de 2011

Meia dúzia de caramujos

- Où y a-t-il ici une discothèque?
- Monsieur!
- Porquoi? Porquoi? Ah! Ah! Ah!
- J'aimerais un diverstissement.
- Venha. Entre rápido, antes que ela veja. Anda, Magra.
- Calma, já estou indo! Já disse que não consigo correr com esses sapatos...
- Fale baixo. Aqui, no balcão... O que você quer beber?
- Nada... Não: uma cerveja.
- Diverstissement! Diverstissement! U-la-la!
- Deux bières, s'il vous plaît!
- O que você acha que pode acontecer, Magra? É só ficar na sua que tudo vai sair bem. Já disse que vou resolver... Você precisa ter calma. Agora me conte: o que você fez com os caramujos?
- Monsieur!
- Yes, yes...
- Merci.
- Temos que ir embora de uma vez, Carlos. Vou hoje, mesmo. Eu juro! Não quero ficar mais um minuto, aqui. Pô, em Paris! E você me prometeu que teríamos uma semana tranqüila, depois de tanto tempo sozinha... Mas, como ela descobriu? Você só pode ter deixado algum furo, Carlos, lá em Goiânia.
- Magra.. Quero saber dos caramujos. Se ela veio até aqui é porque descobriu. Onde estão os caramujos!?
- Place Saint-John Perse, Les Halles, u-la-la.
- Estão lá em cima, na mala, em cima da cama.
- Tá louca?
- Ia dar um jeito nisso agorinha mesmo, quando ela chegou.
- Merda!
- Eu estava esperando você que, pra variar, não aparecia nunca. Onde é que andava?
- Estava dando uns telefonemas pra ver se resolvo tudo junto... Agora vai ter que ser assim mesmo...
- Pois eu fiquei de saco cheio de esperar lá em cima e resolvi dar uma descida. Foi minha sorte. Olho pro balcão e tá lá ela.
- Certo que ela não te viu?
- Où sommes-nous? Où sommes-nous?
- Não, não me viu. Perguntou pelo seu quarto, para o rapaz do balcão que, sem entender, tentava, acalmá-la. Minha sorte é que aquela língua conhecida me chamou a atenção.
- Quel?
- Ahm, Heineken.
- Oui.
- E o que ela falou?
- Não sei direito. Voltei pra perto do elevador e fiquei lá. Ouvi ela perguntar pelo seu nome. Chamou você de ladrão, de picareta. E eu de vagabunda... Fiquei uns bons cinco minutos esperando ali depois de ela sair... Mas, como é que ela descobriu que vínhamos para cá e justamente para este hotel?
- Eu... disse que estaria em Paris pra uma feira de couro e calçado, que realmente está acontecendo aqui perto. Ela deve ter descoberto e procurou o endereço com o pessoal do escritório... Só pode ser isso.
- Carlos. Escute aqui: quando é que nós vamos poder cair fora, hem? Até quando eu vou ter que me esconder? Há dois anos! Nunca que vai resolver isso... Eu não quero mais saber desta situação...
- Magra. Agora, com mais essa leva de caramujos, vou poder resolver tudo. Calma. Só que ela não podia ter descoberto. Não agora!

- Olha, já decidiu como vai ser? O Daniel?
- É! O Daniel. Pensei melhor, enquanto esperava você chegar... Mas vamos ter que dar uma parte da grana pra que ele não abra a boca... Quis quase 40% de tudo. Ofereci 30%. Fechamos em 35%.
- 35%!? Um punhado de caramujos!
- Mas se não for ele, ele nos entrega, é claro. Já sabe das outras... Então, amanhã à tarde, às 15h, o Daniel vai até o quarto da Silvia. Aparentemente será um ladrão, que vai matá-la para roubar dois caramujos...
- Idiots.
- Oui.
- Eu quero a sua mulher morta, Carlos. Não importa como... E logo... Eu quero viver em paz com você, só isso.
- Tróis bière, sil vous plaît.
- Deixa comigo. Por dois caramujos... Então, ela também veio atrás dos caramujos! Aqueles lindos caramujos vermelhos e brilhantes...
- Do you have red vine, monsieur?
- Crôque madame, please.
- Carlos... Tem certeza que ninguém está entendendo o que estamos conversando?
- Não se preocupe, muito dificilmente alguém aqui entende português. Fica fria. Quanto ao hotel... Vou ter que ver outro. Dou um jeito nas suas coisas e, paciência, o que podemos fazer? Despacho as malas pra Zurique... Amanhã, quando tudo estiver acertado, eu vou atrás.
- Deux bière, monsieur.
- Sim, mas cuidado com os caramujos.
- Deixa... Tranqüila... ...comigo... Do que adiantou todos esses anos como uma sovina?... ...sem gastar aquilo tudo... ...matá-la.
- Você viu, Carlos, este cara aqui no balcão?
- Quem?
- Aqui. A toda hora ele parece olhar pra gente. Estou com medo... Meu Deus, chegou a me dar um arrepio. Será que não está entendendo o que a gente fala? O jeito que nos olha... Parece até que vai dizer alguma coisa a qualquer momento.
- Deixe disso, Magra. Ele... ...na dele, fumando, bebendo.... chopinho. Em todos os casos, vamos embora...

Paguei minha conta e levantei-me a tempo de vê-la saindo. O vento esvoaçou seus cabelos pretos, lindos, quando o garçom escancarou a porta. Através do vidro, vi o homem fazer sinal para um táxi e beijá-la rápido, com lábios que pareciam moles de preocupação. Ela acomodou-se no carro e puxou o casaco antes de fechar a porta. Quando deu a volta em direção ao rio, ele acendeu um cigarro e baforou contra a luz uma fumaça grossa. Assim, ele tomou, a pé, a rue Saint-Lazare.
A temperatura forçou-me a levantar a gola do capote. Por duas quadras eu o segui, um tanto atrás, às vezes incomodado por seus passos lentos demais, de quem, ao que parecia, ainda precisava se decidir por algo. Eu já sabia bem o que queria: uma meia-dúzia de caramujos e o telefone da tal da Magra, na Suíça. Ou contaria tudo o que tinha ouvido à polícia. Que sorte! Com a crise, eu já estava decidido a desistir da Europa e voltar para São Paulo! Dois anos enfiado embaixo da terra, como uma toupeira tocando nos túneis do metrô. E nada.
O hotel ficava em frente à gare Saint-Lazare, no bairro da Ópera, e eu caminhava devagar para evitar produzir a cada passo qualquer barulho. No que percebi para onde ia, apressei-me. Ainda ouvi o rangido da porta de vidro se fechando antes de ele chegar ao balcão. Evitei que ela batesse e no momento em que ele pegava a chave, toquei-o no ombro... Ele virou-se gelado como se visse um fantasma. (Jéferson Assumção)

Plataforma Kune, pronta

Depois de anos de trabalho, finalmente os espanhóis Vicente Jurado, Samer e outros amigos terminaram sua hercúlea tarefa de desenvolver a plataforma Kune (juntos em Esperanto) esta semana. Gente boa demais, eles trabalham colaborativamente para gerar mais possibilidades de os trabalhos colaborativos se desenvolverem. Este é um dos resultados a que chegaram:

http://kune.ourproject.org/
a post from Samer explaining our last efforts:
http://kune.ourproject.org/2011/05/kune-sees-the-light/

e a demo (beta) aqui:

http://kune.beta.iepala.es/ws/
http://comunes.org
http://ourproject.org
http://homes.ourproject.org/~vjrj/blog


"Hi there friends,

After so much work these years, we finally started today to give some
diffusion to the public of our project Kune.

You can see an brief intro here (thanks to Samer and Rana):
http://kune.ourproject.org/
a post from Samer explaining our last efforts:
http://kune.ourproject.org/2011/05/kune-sees-the-light/

and a demo (beta) here:
http://kune.beta.iepala.es/ws/

Our last idea is to try to mix all our efforts, that is:
- To integrate Move Commons in kune (having a wizard similar to the
license wizard) so groups can define themselves (like can define how
share its works).
- The integration of troco as a barter system allowing to people that
want to participate to show the service/goods they share... (and allow
to search then).
- Massmob integration allowing to organize meetings/flashmobs/etc
between the members of a group/project/initiative.

there are already a lot of work to do, but seems that it's a good
"start". Now with the difficult parts developed, it's easy and fast to
continue.

We started to see some nice comments, for instance some one in the Wave
mailing list:
«That looks very very impressive - probably the most significant
wave-federating project I've seen and certainly not only a wonderfull
tool in itself, but a big boast to wfp in general!»
http://mail-archives.apache.org/mod_mbox/incubator-wave-dev/201105.mbox/browser

and after such big effort, it's very pleasant to read it.

Anyway thanks to all for your comments, support, etc, etc, etc. Feedback
and comments welcome.

Bests,
--
Vicente J. Ruiz Jurado"

domingo, 10 de abril de 2011

Cultura no governo Tarso

Chimas pela manhã, comemorando a pesquisa que coloca a CULTURA em primeiro lugar na avaliação positiva dos primeiros 100 dias de governo Tarso Genro. Ibope ZH: 44% de ótimo e bom. Depois vêm educação 32% e funcionalismo, 32%. Governo Tarso é aprovado por 80% dos gaúchos. http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Pol%EDtica&newsID=a3269912.xml

domingo, 6 de março de 2011

A vida é um gênero literário

A vida nos é dada, mas não nos é dada pronta. Por isso, para Ortega, o ser humano está sempre em uma posição dificílima. Não lhe é dada de maneira completa a forma de sua vida, como foi dada à àrvore, à pedra ou ao tigre. Para ser, o humano precisa fazer-se. Precisa escolher a todo instante a sua forma de ser e é por isso que é forçado a ser livre (disse isso antes de Sartre, inclusive). "Es, por fuerza, libre", escreve Ortega (vol 8, Obras Completas da Alianza Editorial, 1994. p. 28). Assim é como se lhe fosse dito que se ele quer ser realmente ele próprio tem que adotar uma forma de vida muito determinada. Tem que determinar-se a si próprio, fazer-se a si pŕoprio o que ele mesmo é. "Agora: tu podes, se queres, não adotá-la e decidir ser outra coisa e não aquela que tem que ser". Tem que ser! A necessidade humana, para Ortega, é o terrível imperativo de autenticidade. "Quem livremente não a cumpre, falsifica sua vida, a desvive, se suicida". Fica oco por dentro, um homem-massa que tudo o que possui, como oco, é eco do que vem de fora. A cortesia cruel do destino é que o homem é convidado inclusive a ser o que ele não é. Mesmo a ser nada. Então, diz o filósofo: "o imperativo de autenticidade é um imperativo de invenção. Por isso a faculdade primordial do homem é a fantasia". Inclusive "o que se chama pensar científico não é psicologicamente senão uma variedade da fantasia, é a fantasia da exatidão. A vida humana é, portanto, faina poética, invenção do personagem que cada qual, que cada época tem que ser. O homem é novelista de si mesmo. E quando a um povo lhe seca a fantasia para criar seu próprio programa vital, está perdido. Já disse a vocês que a condição humana é estupefaciante. Pois bem, a vida resulta exatamente... um gênero literário!".

Antropofagia espanhola

"No imagine, pues, el lector mi viaje a Alemania como el viaje de un devoto peregrino que va a besar en Roma el pié del Santo Padre. Todo lo contrario. Era el raudo vuelo predatorio, el descenso de flecha que hace el joven azor hambriento sobre algo vivo, carnoso, que su ojo redondo y alerta descubre en la campiña. En aquella mi mocedad apasionada era yo, en efecto, un poco ese gavilán joven, era voraz, altivo, bélico, y como él manejaba la pluma. La cosa era, pues, muy sencilla. Yo iba a Alemania para traerme al rincón de la ruina la cultura alemana y allí devorala". Ortega y Gasset, J. Obras Completas, vol. 8, p.24. Alianza Editorial, Madrid, 1994 (revisada). Essa relação altiva com o conhecimento e não a assimilação passiva é uma espécie de antropofagia orteguiana, espanhola.

Orteguiana do dia

"O cinismo é sempre um pouco de exibicionismo". Está em Prólogo para Alemanes, p.25, vol.8 das Obras Completas da Alianza Editorial.

domingo, 18 de julho de 2010

Recomendação do blogue

Blogue de viagens meu e da Cecília

http://melancolia-viageira.blogspot.com/