Acho muito interessantes dois princípios da cultura hacker*. O primeiro é o da colaboração, às vezes anônima, em relação a um objetivo comum. Em diversas ocasiões (e certamente isso está acontecendo neste momento) vinte ou mais meninos e meninas espalhados no mundo todo e trabalhando sob um mesmo código fazem um game, uma tradução ou um programa de computador em semanas, de maneira lúdica e participativa. O resultado é partilhado por todos e utilizado, muitas vezes por milhares (até milhões) de pessoas, as quais eles sequer têm ideia de quem existam.
O segundo princípio é o seguinte: o que já está pronto, não faremos de novo. Copiaremos. Usaremos esta ferramenta virtual para produzir coisas novas. Assim, frente a um problema – um software para ajudar deficientes visuais a ouvirem livros, por exemplo – o primeiro que fazem é procurar em listas de correio ou num buscador de internet se um programa desses existe ou se está sendo desenvolvido em algum ponto do planeta. Se existe, ótimo: ´bora copiar, usar e testamos se funciona realmente. Se não funciona bem, o que podemos fazer para melhorá-lo? E só se ele não existe é que um praticante da filosofia hacker (hack são truques, inversões e sacadas novas que podem ajudar a resolver um problema) vai começar algo do zero. Às vezes passam meses, até anos, mergulhados em um gigante sistema de símbolos de uma cabala virtual indecifrável para nós mortais, a tricotarem um mundo absolutamente real, de ferramentas que podem ser utilizadas com nossos dedos e nossas mentes. E todo este esforço, de graça.
Mas o que eles ganham com isso, perguntariam o cético, o utilitarista e o pragmático? Por que se dedicam a fazer uma coisa dessas que não lhes dá nada em troca? Nada? Depende de que valores se está falando?
Este exército cada vez maior, que dia a dia cutuca o calcanhar de Aquiles do mundo da acumulação capitalista (por não estar nem aí para os seus valores), o faz pela vontade de colaborar, pela alegria de ver pronto, pela fruição de seu próprio espírito vivendo à margem da alienação do trabalho mercantilizado ou, finalmente, porque tudo isso, além do mais, dá prazer e vontade de continuar fazendo. Como um jogo do homo-ludens-sapiens-demens que somos quando não diminuímos o fim e o princípio de nós mesmos. E a fonte desses sentimentos é o oxigênio da criatividade, libertária e bela. Por baixo de tudo isso está uma visão de mundo com princípios arejados e arejadores e que, desde que encontrou condições tecnológicas para tal, se desenvolve à margem dos viciados códigos de um mundo real cada vez mais opaco e empobrecido.
Muitos desses hacktivistas o que querem é simplesmente mostrar para os amigos seus feitos de ativistas românticos. E por isso, constituem-se em uma geração de pessoas com valores muitas vezes (mas não necessariamente) à margem da cultura de massa e da violência subjetiva, simbólica, dos grandes meios de comunicação que falam com todo mundo, mas não com eles. Esses, falam mais entre si. Em rede.
Uma imensa parcela deles não tem televisão em casa, nem terá, porque acha este um equipamento eletrônico dinossáurico, muito pouco interativo. Softwares normais, proprietários, idem. Afinal, não os deixam mexer e fazer as coisas de maneira diferente, com sua criatividade e visão de mundo. O que quereriam eles com isso? Pois acredite: tem aí fora uma massa crescente de pessoas que passam a se relacionar com o mundo a partir de outros valores, concretíssimos valores vividos e que vêm deixando para trás, no mínimo no ridículo, aqueles que tanto enfeiam o planeta com sua alma pesada, cansada de tanto acumular e nada colaborar.
E eles estão na periferia. Não apenas nos Estados Unidos ou na Inglaterra, mas na Espanha, no Brasil, na Índia, países em que o uso de plataformas livres vem se desenvolvendo aceleradamente. Hoje, por exemplo, em milhares de cidades do Brasil inteiro, qualquer criança que chegar na Biblioteca Pública, e usar os computadores do telecentro estará entrando mesmo sem saber no mundo do software livre. Querendo ir atrás, poderá fazer dessa uma porta de saída para situações de vulnerabilidade social às vezes extrema, porque nos softwares livres as portas não estão cadeadas por códigos-fonte fechados. Daí a necessidade de se trabalhar com o conceito não de inclusão digital (inclusão como passivos consumidores de softwares proprietários), mas com o conceito de cultura digital, em que os usuários são participantes ativos da cultura livre.
O grande hack da cultura digital está em sua noção de propriedade privada. Como no mundo virtual, não há restrição material para a posse de um objeto (que pode ser copiado indefinidamente), na cultura colaborativa se fala - com um pouco de ironia, é claro - é da radicalização da propriedade privada, em vez de sua abolição. O mesmo com a liberdade...
E a cultura colaborativa começa a descer do mundo hakcer para o mundo real. Cada vez mais, em diferentes áreas, conceitos como de copyleft (o contrário de copyright, restritivo) e ação cidadã em rede são aplicados a outros cantos do conhecer e do fazer. Aqui no Rio Grande do Sul, desde o 1º Fórum Social Mundial até o descentralizado, em 2010, temos o privilégio de conhecer várias dessas alternativas concretas em curso. Pra ficar em alguns: Zaira Machado e Antonio Martins (no jornalismo), Senhor F, Éverton Rodrigues, Teatro Mágico, GOG e as Bandas Independentes Locais - BIL (no mundo da música independente e da Música para Baixar - MPB) enfim...
Mas também nas sementes, na agricultura orgânica e no mundo jurídico (sim, há hacks jurídicos, como os do advogado espanhol Javier de la Cueva, em termos de propriedade intelectual), outros hacks começam a aparecer. É a aplicação da "regra de três" de Vicente Jurado (ourproject.org), programador e ativista ecológico espanhol. Passagem do mundo virtual para o concreto: se para softwares privados temos softwares livres, para sementes privadas temos sementes livres, para outros problemas, temos outros X, também: enfim este é o mundo das alternativas que começa a se formar.
E com relação à arte? À produção, distribuição e fruição artística? Se tem como copiar e distribuir gratuitamente, por que não fazê-lo? Só se o autor não o permitir, usando uma licença que proíba a troca (o copyright restritivo), para acumular sabe-se lá o que, em tempos de falência múltipla das indústrias culturais tradicionais. Gravadoras e empresas de cinema estão indo para o beleléu há anos, e só quem não viu isso é que segue alimentando o cadáver, confundindo o copyright (cedência dos direito aos donos dos meios de reprodução), com direito autoral (direito moral do autor).
Mas, e aí? É possível o artista viver de copyleft? O copyleft faz mal à cultura? O copyleft acaba com o direito moral do autor em relação a sua obra? Claro que não. Dos cinco pontos elencados no Manual de Copyleft (que o leitor pode baixar de graça na www.traficantes.net, da editora madrilenha Traficantes de Sueños), um seria suficiente para esclarecer de vez a situação. Trata-se do chamado "efeito de ser conhecido", que se amplia vigorosamente com o uso de licenças livres na comparação com o direito de cópia das majors, que restringe a circulação das obras intelectuais etc. Se se quer ser colaborativo (e ainda ganhar uma grana, muitas vezes a única para sobreviver), pode-se usar licenças para este fim, como creative commons. E continuar sendo o dono de sua obra intelectual sem precisar vendê-la por míseros trocados à moribunda indústria tradicional - trocados que só são pagos em dia aos mais famosos, pois o restante dos escritores e músicos menos conhecidos vive mais é de fontes indiretas, como palestras e shows.
Dentro de um último grupo, há os ainda mais radicais. São aqueles que produzem colaborativamente e distribuem seus produtos de maneira gratuita porque querem - simplesmente porque querem - ver algumas rachaduras se formando no falido sistema de interpretação do mundo atual. Recolocam a utopia, num outro patamar, pois sabem que assim como a ponta do discurso da esperança é a ingenuidade, a ponta do ceticismo é o cinismo. E o cinismo é imobilizador. De minha parte, também prefiro o primeiro ao segundo.
* Hackers são programadores e desenvolvedores de softwares livres se diferenciam dos crackers, os que usam seu conhecimento em informática para quebrar e não para construir colaborativamente.
terça-feira, 18 de maio de 2010
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Tchecov ou barbárie
A frase acima é o slogan aprovado por unanimidade na última reunião da tendência socialista tchecoviana integrada pelo escritor Jéferson Assumção, gaúcho, e Américo Córdula, teatrólogo paulista-paraibano. Dois dos menos influentes tchecovianos brasileiros participaram, para além de seus compromissos políticos de estruturação da dita corrente, do VII Encontro Brasileiro de Teatro de Rua, ontem, em Canoas.
Por ordem de chegada, o socialismo tchecoviano solicitou a palavra em determinado momento e passou a divagar sobre os temas principais do tchecovianismo brasileiro. Detalhou-se o que seria o decálogo estético da corrente (basicamente, ausência de palavreado prolongado de natureza socio-político-econômica; objetividade total; veracidade nas descrições dos personagens e dos objetos; brevidade extrema; fuga de lugares comuns e sinceridade). "A sinceridade é uma categoria estética", lembrou, embaixo do arvoredo onde o encontro acontecia, o vice-presidente da tendência, Jéferson Assumção. Um encontro anual da facção estética que propugna a volta imediata da literatura e do teatro aos preceitos do cânone tchecoviano ocorrerá anualmente no Teatro Nacional de Moscou, Rússia (ou do que sobrou dela): a Gaivota, para os iniciados no tema.
Por ordem de chegada, o socialismo tchecoviano solicitou a palavra em determinado momento e passou a divagar sobre os temas principais do tchecovianismo brasileiro. Detalhou-se o que seria o decálogo estético da corrente (basicamente, ausência de palavreado prolongado de natureza socio-político-econômica; objetividade total; veracidade nas descrições dos personagens e dos objetos; brevidade extrema; fuga de lugares comuns e sinceridade). "A sinceridade é uma categoria estética", lembrou, embaixo do arvoredo onde o encontro acontecia, o vice-presidente da tendência, Jéferson Assumção. Um encontro anual da facção estética que propugna a volta imediata da literatura e do teatro aos preceitos do cânone tchecoviano ocorrerá anualmente no Teatro Nacional de Moscou, Rússia (ou do que sobrou dela): a Gaivota, para os iniciados no tema.
domingo, 25 de abril de 2010
Yuri F. Rodriguez, escritor caído
Yuri F. Rodriguez foi um tipo de escritor caído, espetáculo anacrônico do romantismo tardio e que desaparece, pra sempre, sem deixar sementes - só as gotas espalhadas pela terra cheia de areia e pedras, de um pampa deserto. Culminou, com seu esgotamento, um caminho. E por quê? Bom, é o que todos sabem: a cada dia que passa, nós sabemos que eles, os escritores, são mais ridículos, cada vez mais farsantes, à medida que o mundo anda, em sua correria, não digo dando as costas às suas já mirradas ejaculações - para evitar uma imagem excessivamente sexual – mas num nem-aí, que faz do dasein um pouco mais que um porra-louca das florestas encantadas da Alemanha.
“O ser-aí é só o nem-aí, na verdade, Astronauta. Não existe mais qualquer seriedade neste mundo” – Yuri reclamava - “E Heidegger, Sartre, Ortega e Unamuno são pura e simplesmente uns imbecis. A verdade é o riso do entrevistado antes de levantar da poltrona para cantar mais um hit no playback estimulando o auditório com palmas acima da cabeça. Um click na tevê e lá no outro canal tem uma família feliz no novo carro espaçoso. Mais um e aparece a apresentadora de tevê comentando o lançamento de um magnífico antirrugas. E se desliga a tevê fica ainda aquela sensação, a vertigem da velocidade que esparrama por cima de tudo o creme da impessoalidade, fragmentada, perturbadora, infértil, impossibilitando qualquer leitura mais demorada, mais atenta, qualquer mínima exigência, Astronauta”.
Por que Yuri Rodriguez foi, assim como eles, tão imbecil? Por que foi um merda? Por que não calou a boca, como todo mundo e, assim, continuaria vivo? Porque não dava. Ele fez o caminho contrário. Não correu pra lá, pra onde todos foram em gritinhos animados, mas pra cá, pra dentro, mesmo, cavando, mudo, com as próprias unhas, até chegar no fundo frio do poço escuro de si mesmo, onde caiu. E sem ter como voltar. Ali, só tinha a sua escrita, a que se achava com algum poder para contrapor-se ao universo de balbúrdias, a que se quis abolidora da cor local, a que tentava instalar a romântica petulância do gris sobre o inferno das cores da América do Sul. Em vão.
Tentou fazer o mesmo com a linguagem. Escrever para além dela, tendo que contar com ela, mas não sem a relutante consciência de que a linguagem seja, talvez, a única inimiga da literatura, e que só com a construção de uma espécie de clareira em sua natural opacidade é que se consegue enxergar o que são as coisas – ingênua petulância, a mais doce de todas a vivida por Yuri, assassinado por este mundo de porcos. Ele construiu lentes para melhor enxergar isso tudo e se opôs à farsa dos adornos desnecessários e infrutíferos, na busca das pequenas e únicas verdades. Quem quereria alguma coisa com isso?
Obviamente que há outros imbecis como Yuri. Também eles nasceram em lugares um tanto improváveis, em ambientes pouco propícios para o cultivo da literatura, como é o caso do Pampa. A úmida e sonora amazônia brasileira e colombiana, as grandes metrópoles invisíveis como São Paulo ou Belo Horizonte, a mais que vista Nova York, os frios e desertos altiplanos da Bolívia, os quentes e superpopulosos desertos mexicanos, o alegre joga-as-mãozinhas-pra-cima-bate-na-palma-da-mão do litoral brasileiro, as infinitas ondas do mar encrespado e pétreo da cordilheira dos Andes, os arredores barrentos e escuros da Europa do Leste, a inatingível estepe sul-africana, habitada por leões, por guepardos e obviamente por escritores. E até mesmo a Austrália, tão imprópria para a literatura por suas promessas sempre renovadas de novas aventuras.
E tantos já tinham morrido antes dele, tantos já hoje são apenas fotos de escritores brasileiros, chineses, argentinos, árabes, japoneses, penduradas em livrarias e cafés em Buenos Aires e São Francisco, em Pequim ou Rio de Janeiro, santos de uma religião já quase extinta, como bem queria o genial Thomas Bernardt, também morto.
Gente como Yuri, cujas idéias serão fósseis desencavados por cientistas e uma pequena porção de leitores amantes de um passado recente e, talvez por isso mesmo, até mais passado do que o mais distante, da ingrata humanidade. Deles, mais nada sobra, a não ser pequenas e privadas lembranças de cada vez menos leitores sem força alguma para se impor a um mundo que soterra a todos com a frieza anestésica de sua realidade, aterradora para a delicadeza das palavras.
O que Yuri fez foi muito mais que a louca revolução pessoal contra esta violência. Ao catar, na multidão, com paciência de garimpeiro, aqueles exemplares, para um acerto de contas estético, a faxina espiritual necessária, a violência reparadora de que este planeta tanto necessitou, ele não fez mais do que a única coisa possível via literatura: a negação do mundo. Para isso, teve, evidentemente, um método. Não bateu ao acaso, tal qual um desesperado lutador de rua como pode parecer ao observador desavisado. Foram ações de cirurgião e que tiveram como fim não a violência, mas esta o meio para a educação impossível da multidão de almas errantes de seu inferno pessoal. Esse é que foi seu único erro, evidentemente: acreditar que seria possível.
Nos últimos anos, já quase não escrevia mais. A última notícia sobre um livro seu – uma nota sem qualquer repercussão na Zero Hora - já tinha mais de quatro anos. Mesmo com o pequeno sucesso alcançado tempos atrás, o que com certeza o enterrará e fará de seu apartamento mais um dos pontos turísticos literários da nossa capital, ao lado do caminho de tantos grandes escritores. Foi assim, pobre desse jeito, em Buenos Aires, com a Plazoleta Cortázar ou sua imagem, como um santo desenhado na estação de Banfield. Ou com a rua Jorge Luiz Borges e o centro cultural que leva seu nome.
Foi um abandono da ética. Foi uma desistência do real. Foi a negação da objetividade, que seguiram-se ao fracasso do caminho que ele escolheu. Certamente que já estava mais para cá do que pra lá, mas na noite que se foi, ele completou a queda e se estatelou na terra dura do fundo. Lá dentro, ria soluçante um fantasma. Não o do simples escritor, mas o do escritor megalomaníaco, o idiota que quis colocar os pingos nos is, para restituir, com sua arte, uma racionalidade perdida, talvez pra sempre.
“O ser-aí é só o nem-aí, na verdade, Astronauta. Não existe mais qualquer seriedade neste mundo” – Yuri reclamava - “E Heidegger, Sartre, Ortega e Unamuno são pura e simplesmente uns imbecis. A verdade é o riso do entrevistado antes de levantar da poltrona para cantar mais um hit no playback estimulando o auditório com palmas acima da cabeça. Um click na tevê e lá no outro canal tem uma família feliz no novo carro espaçoso. Mais um e aparece a apresentadora de tevê comentando o lançamento de um magnífico antirrugas. E se desliga a tevê fica ainda aquela sensação, a vertigem da velocidade que esparrama por cima de tudo o creme da impessoalidade, fragmentada, perturbadora, infértil, impossibilitando qualquer leitura mais demorada, mais atenta, qualquer mínima exigência, Astronauta”.
Por que Yuri Rodriguez foi, assim como eles, tão imbecil? Por que foi um merda? Por que não calou a boca, como todo mundo e, assim, continuaria vivo? Porque não dava. Ele fez o caminho contrário. Não correu pra lá, pra onde todos foram em gritinhos animados, mas pra cá, pra dentro, mesmo, cavando, mudo, com as próprias unhas, até chegar no fundo frio do poço escuro de si mesmo, onde caiu. E sem ter como voltar. Ali, só tinha a sua escrita, a que se achava com algum poder para contrapor-se ao universo de balbúrdias, a que se quis abolidora da cor local, a que tentava instalar a romântica petulância do gris sobre o inferno das cores da América do Sul. Em vão.
Tentou fazer o mesmo com a linguagem. Escrever para além dela, tendo que contar com ela, mas não sem a relutante consciência de que a linguagem seja, talvez, a única inimiga da literatura, e que só com a construção de uma espécie de clareira em sua natural opacidade é que se consegue enxergar o que são as coisas – ingênua petulância, a mais doce de todas a vivida por Yuri, assassinado por este mundo de porcos. Ele construiu lentes para melhor enxergar isso tudo e se opôs à farsa dos adornos desnecessários e infrutíferos, na busca das pequenas e únicas verdades. Quem quereria alguma coisa com isso?
Obviamente que há outros imbecis como Yuri. Também eles nasceram em lugares um tanto improváveis, em ambientes pouco propícios para o cultivo da literatura, como é o caso do Pampa. A úmida e sonora amazônia brasileira e colombiana, as grandes metrópoles invisíveis como São Paulo ou Belo Horizonte, a mais que vista Nova York, os frios e desertos altiplanos da Bolívia, os quentes e superpopulosos desertos mexicanos, o alegre joga-as-mãozinhas-pra-cima-bate-na-palma-da-mão do litoral brasileiro, as infinitas ondas do mar encrespado e pétreo da cordilheira dos Andes, os arredores barrentos e escuros da Europa do Leste, a inatingível estepe sul-africana, habitada por leões, por guepardos e obviamente por escritores. E até mesmo a Austrália, tão imprópria para a literatura por suas promessas sempre renovadas de novas aventuras.
E tantos já tinham morrido antes dele, tantos já hoje são apenas fotos de escritores brasileiros, chineses, argentinos, árabes, japoneses, penduradas em livrarias e cafés em Buenos Aires e São Francisco, em Pequim ou Rio de Janeiro, santos de uma religião já quase extinta, como bem queria o genial Thomas Bernardt, também morto.
Gente como Yuri, cujas idéias serão fósseis desencavados por cientistas e uma pequena porção de leitores amantes de um passado recente e, talvez por isso mesmo, até mais passado do que o mais distante, da ingrata humanidade. Deles, mais nada sobra, a não ser pequenas e privadas lembranças de cada vez menos leitores sem força alguma para se impor a um mundo que soterra a todos com a frieza anestésica de sua realidade, aterradora para a delicadeza das palavras.
O que Yuri fez foi muito mais que a louca revolução pessoal contra esta violência. Ao catar, na multidão, com paciência de garimpeiro, aqueles exemplares, para um acerto de contas estético, a faxina espiritual necessária, a violência reparadora de que este planeta tanto necessitou, ele não fez mais do que a única coisa possível via literatura: a negação do mundo. Para isso, teve, evidentemente, um método. Não bateu ao acaso, tal qual um desesperado lutador de rua como pode parecer ao observador desavisado. Foram ações de cirurgião e que tiveram como fim não a violência, mas esta o meio para a educação impossível da multidão de almas errantes de seu inferno pessoal. Esse é que foi seu único erro, evidentemente: acreditar que seria possível.
Nos últimos anos, já quase não escrevia mais. A última notícia sobre um livro seu – uma nota sem qualquer repercussão na Zero Hora - já tinha mais de quatro anos. Mesmo com o pequeno sucesso alcançado tempos atrás, o que com certeza o enterrará e fará de seu apartamento mais um dos pontos turísticos literários da nossa capital, ao lado do caminho de tantos grandes escritores. Foi assim, pobre desse jeito, em Buenos Aires, com a Plazoleta Cortázar ou sua imagem, como um santo desenhado na estação de Banfield. Ou com a rua Jorge Luiz Borges e o centro cultural que leva seu nome.
Foi um abandono da ética. Foi uma desistência do real. Foi a negação da objetividade, que seguiram-se ao fracasso do caminho que ele escolheu. Certamente que já estava mais para cá do que pra lá, mas na noite que se foi, ele completou a queda e se estatelou na terra dura do fundo. Lá dentro, ria soluçante um fantasma. Não o do simples escritor, mas o do escritor megalomaníaco, o idiota que quis colocar os pingos nos is, para restituir, com sua arte, uma racionalidade perdida, talvez pra sempre.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
50 anos do Exu Monumental
Há 50 anos, completados dia 21 de abril, inaugurava-se Brasília, cidade-monumento pousada - a altíssimo custo - no Planalto Central do País. Um ponto eqüidistante, pelo menos no imaginário brasileiro, de confluência de culturas, desde as desenvolvidas nas grandes cidades da costa superurbanizada, até as sertanejas, sulistas, amazônicas, pantaneiras... A menos brasileira das cidades do Brasil – alheia à e alienada da realidade que a cerca - a mais brasileira de todas, com tudo, de bem e de mal, de um imenso país diverso e desigual.
Cidade-parque, cidade-obra de arte, cidade-bolha, cidade medieval de pontes elevadiças que a cada noite fecha seus portões já sem os moradores das cidades satélites que de dia são sua parte humana visível, a atender nas portarias dos edifícios modernistas, amplos, belos, cheios de vazios e de silêncios emudecedores. Mas ela não é boa. Ela não é má. Ela é só o resultado de um feitiço, um saravá racionalmente planejado e executado quase que nos mínimos detalhes.
Há pouco mais de 50 anos, um fotógrafo captou de cima de um teco-teco o cruzamento de dois cortes abrindo o vermelho da terra onde antes era vegetação do Cerrado. Preto & branco, a foto clássica captou uma cruz, leste-oeste-norte-sul, mas como ficou enviesada pela posição do avião, resultou em um imenso “x”. Vi esta foto várias vezes na Secretaria de Cultura do DF. É o risco dos tratores no local em que o místico Dom Bosco teria visto, séculos atrás, uma cidade suntuosa, a nova capital que JK resolveu concretizar a custo do suor e do sangue dos mais pobres: um milagre. Este eixo monumental o jornalista TT Catalão chamou certa vez, de maneira muito espirituosa, de “Exu Monumental”.
Um Exu, na grande encruzilhada nacional, encruzilhada das encruzilhadas que é Brasília, cruzamento do urbano e do rural; do nacional e o universal; das culturas populares e eruditas; dos saberes tradicionais e as novas tecnologias; das culturas negra, indígena e branca mesclando-se em um caldeirão de idéias e vivências dos brasileiros com o Brasil... Antropofágico. Acolhedor. Voraz.
Exu não é deus. Exu não é o diabo. É apenas um mensageiro entre os seres humanos e os orixás. Espécie de Mercúrio das religiões afro-brasileiras. Quando oferecemos algo aos céus (ou infernos, pouco importa, já que, Exu, nietszcheanamente, está além do bem ou de mal), colocamos as oferendas nas encruzilhadas, nos encontros das ruas.
Mal-comparando, é mais ou menos isso o que se passa com a capital do Brasil. Para esta encruzilhada, levamos o que temos de melhor – um povo fantástico, arquitetos e artistas miraculosos, uma variadíssima cultura, sonhadores, místicos, batalhadores – e o que temos de pior – os violentos e pesados frutos da política dinossáurica e do parasitismo brasileiros. Está tudo lá, na esquina.
Aos 50 anos, Brasília é hoje a capital de um país que se mostra cada vez mais gigante, repleto de uma cultura híbrida, diversa, reconhecida no mundo todo como um de seus principais ativos. Uma nação que tem sabido amalgamar diferenças e fazer novidades brasileiras, com criatividade e sensibilidade. Apesar de tudo.
Uma pena que se trate muitas vezes de um Brasil praticamente desconhecido por nós, gaúchos, mergulhados, não individualmente, mas em escala social, ainda no paradigma da identidade (à força dos meios de comunicação e entretenimento, e do atrasismo conservador que tão bem manipulam e ganham dinheiro a explorar certo sentimento de purismo cultural, tão falso quanto perigoso). Daqui, não-raro as lentes distorcem com o preconceito e a desinformação a imagem de um Brasil fantástico.
E, assim, corremos o risco de perder a perspectiva do pertencimento, a perspectiva do Sul como contribuição generosa, em vez de diferença egoísta, o que, afinal, não tem nada a ver conosco, apesar da versão estereotipada vendida daqui mesmo para o resto do Brasil.
Diversidade não anula a identidade. Mostra-a como contribuição, como parte de um todo diverso no qual estamos com nossas especificidades: o estado, o país, o mundo, o universo (unimúltiplo). Tal sentimento talvez seja mais fácil de ser compreendido na capital do Brasil, lugar cuja identidade é a diversidade, não-lugar e lugar de todos. É a capital de um país de culturas de fronteira, antropofágicas, também ele uma encruzilhada, um x a ser decifrado, a todo o tempo nos exigindo a paciência do olhar mais atento que o das explicações binárias - simplistas mas nunca inocentes.
Cidade-parque, cidade-obra de arte, cidade-bolha, cidade medieval de pontes elevadiças que a cada noite fecha seus portões já sem os moradores das cidades satélites que de dia são sua parte humana visível, a atender nas portarias dos edifícios modernistas, amplos, belos, cheios de vazios e de silêncios emudecedores. Mas ela não é boa. Ela não é má. Ela é só o resultado de um feitiço, um saravá racionalmente planejado e executado quase que nos mínimos detalhes.
Há pouco mais de 50 anos, um fotógrafo captou de cima de um teco-teco o cruzamento de dois cortes abrindo o vermelho da terra onde antes era vegetação do Cerrado. Preto & branco, a foto clássica captou uma cruz, leste-oeste-norte-sul, mas como ficou enviesada pela posição do avião, resultou em um imenso “x”. Vi esta foto várias vezes na Secretaria de Cultura do DF. É o risco dos tratores no local em que o místico Dom Bosco teria visto, séculos atrás, uma cidade suntuosa, a nova capital que JK resolveu concretizar a custo do suor e do sangue dos mais pobres: um milagre. Este eixo monumental o jornalista TT Catalão chamou certa vez, de maneira muito espirituosa, de “Exu Monumental”.
Um Exu, na grande encruzilhada nacional, encruzilhada das encruzilhadas que é Brasília, cruzamento do urbano e do rural; do nacional e o universal; das culturas populares e eruditas; dos saberes tradicionais e as novas tecnologias; das culturas negra, indígena e branca mesclando-se em um caldeirão de idéias e vivências dos brasileiros com o Brasil... Antropofágico. Acolhedor. Voraz.
Exu não é deus. Exu não é o diabo. É apenas um mensageiro entre os seres humanos e os orixás. Espécie de Mercúrio das religiões afro-brasileiras. Quando oferecemos algo aos céus (ou infernos, pouco importa, já que, Exu, nietszcheanamente, está além do bem ou de mal), colocamos as oferendas nas encruzilhadas, nos encontros das ruas.
Mal-comparando, é mais ou menos isso o que se passa com a capital do Brasil. Para esta encruzilhada, levamos o que temos de melhor – um povo fantástico, arquitetos e artistas miraculosos, uma variadíssima cultura, sonhadores, místicos, batalhadores – e o que temos de pior – os violentos e pesados frutos da política dinossáurica e do parasitismo brasileiros. Está tudo lá, na esquina.
Aos 50 anos, Brasília é hoje a capital de um país que se mostra cada vez mais gigante, repleto de uma cultura híbrida, diversa, reconhecida no mundo todo como um de seus principais ativos. Uma nação que tem sabido amalgamar diferenças e fazer novidades brasileiras, com criatividade e sensibilidade. Apesar de tudo.
Uma pena que se trate muitas vezes de um Brasil praticamente desconhecido por nós, gaúchos, mergulhados, não individualmente, mas em escala social, ainda no paradigma da identidade (à força dos meios de comunicação e entretenimento, e do atrasismo conservador que tão bem manipulam e ganham dinheiro a explorar certo sentimento de purismo cultural, tão falso quanto perigoso). Daqui, não-raro as lentes distorcem com o preconceito e a desinformação a imagem de um Brasil fantástico.
E, assim, corremos o risco de perder a perspectiva do pertencimento, a perspectiva do Sul como contribuição generosa, em vez de diferença egoísta, o que, afinal, não tem nada a ver conosco, apesar da versão estereotipada vendida daqui mesmo para o resto do Brasil.
Diversidade não anula a identidade. Mostra-a como contribuição, como parte de um todo diverso no qual estamos com nossas especificidades: o estado, o país, o mundo, o universo (unimúltiplo). Tal sentimento talvez seja mais fácil de ser compreendido na capital do Brasil, lugar cuja identidade é a diversidade, não-lugar e lugar de todos. É a capital de um país de culturas de fronteira, antropofágicas, também ele uma encruzilhada, um x a ser decifrado, a todo o tempo nos exigindo a paciência do olhar mais atento que o das explicações binárias - simplistas mas nunca inocentes.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Comunes.org
Um em mundo de constante tentativa de supressão das ações coletivas em nome de uma idéia falsa de liberdade - algemada a valores econômicos - a iniciativa Comunes.org, espanhola, é oxigênio. Gente bacana que trata de fazer seu conhecimento circular com liberdade. Não a abstrata liberdade, à qual só acedem os que tem dinheiro (a maioria, aqueles que já nasceram com). Enfim, os comunes inventaram uma forma muito bacana de ajudar projetos colaborativos a se desenvolver. Aplicam conceitos do mundo dos softwares livres ao mundo real. No Lavapiés, colorido bairro de imigrantes de Madri, Vicente Jurado, hacktivista basco-andaluz-madrileño, faz, junto com amigos de diversas partes do mundo, uma quieta revolução. Confira: http://comunes.org/pt.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Mutantes no FSM em Canoas 6
Primeira parte do show dos Mutantes em Canoas, dia 26 de janeiro, no Fórum Social Mundial.
Mutantes no FSM em Canoas 5
Mutantes no Parque Esportivo Eduardo Gomes, em Canoas, 26 de janeiro de 2010. Fórum Social Mundial 10 anos.
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