domingo, 6 de março de 2011

A vida é um gênero literário

A vida nos é dada, mas não nos é dada pronta. Por isso, para Ortega, o ser humano está sempre em uma posição dificílima. Não lhe é dada de maneira completa a forma de sua vida, como foi dada à àrvore, à pedra ou ao tigre. Para ser, o humano precisa fazer-se. Precisa escolher a todo instante a sua forma de ser e é por isso que é forçado a ser livre (disse isso antes de Sartre, inclusive). "Es, por fuerza, libre", escreve Ortega (vol 8, Obras Completas da Alianza Editorial, 1994. p. 28). Assim é como se lhe fosse dito que se ele quer ser realmente ele próprio tem que adotar uma forma de vida muito determinada. Tem que determinar-se a si próprio, fazer-se a si pŕoprio o que ele mesmo é. "Agora: tu podes, se queres, não adotá-la e decidir ser outra coisa e não aquela que tem que ser". Tem que ser! A necessidade humana, para Ortega, é o terrível imperativo de autenticidade. "Quem livremente não a cumpre, falsifica sua vida, a desvive, se suicida". Fica oco por dentro, um homem-massa que tudo o que possui, como oco, é eco do que vem de fora. A cortesia cruel do destino é que o homem é convidado inclusive a ser o que ele não é. Mesmo a ser nada. Então, diz o filósofo: "o imperativo de autenticidade é um imperativo de invenção. Por isso a faculdade primordial do homem é a fantasia". Inclusive "o que se chama pensar científico não é psicologicamente senão uma variedade da fantasia, é a fantasia da exatidão. A vida humana é, portanto, faina poética, invenção do personagem que cada qual, que cada época tem que ser. O homem é novelista de si mesmo. E quando a um povo lhe seca a fantasia para criar seu próprio programa vital, está perdido. Já disse a vocês que a condição humana é estupefaciante. Pois bem, a vida resulta exatamente... um gênero literário!".

Antropofagia espanhola

"No imagine, pues, el lector mi viaje a Alemania como el viaje de un devoto peregrino que va a besar en Roma el pié del Santo Padre. Todo lo contrario. Era el raudo vuelo predatorio, el descenso de flecha que hace el joven azor hambriento sobre algo vivo, carnoso, que su ojo redondo y alerta descubre en la campiña. En aquella mi mocedad apasionada era yo, en efecto, un poco ese gavilán joven, era voraz, altivo, bélico, y como él manejaba la pluma. La cosa era, pues, muy sencilla. Yo iba a Alemania para traerme al rincón de la ruina la cultura alemana y allí devorala". Ortega y Gasset, J. Obras Completas, vol. 8, p.24. Alianza Editorial, Madrid, 1994 (revisada). Essa relação altiva com o conhecimento e não a assimilação passiva é uma espécie de antropofagia orteguiana, espanhola.

Orteguiana do dia

"O cinismo é sempre um pouco de exibicionismo". Está em Prólogo para Alemanes, p.25, vol.8 das Obras Completas da Alianza Editorial.

domingo, 18 de julho de 2010

Recomendação do blogue

Blogue de viagens meu e da Cecília

http://melancolia-viageira.blogspot.com/

O movimento silencioso dos lítero-ativistas

Quando, no final da Idade Média, os leitores se deram conta de que podiam ler em silêncio, teve muita gente que não gostou. Os padres, por exemplo, temerosos de que não pudessem mais controlar o que os estudantes estavam lendo, chegaram a proibir a estranha prática.

Enxergavam nela um potencial subversivo. Até então, as bibliotecas, segundo conta o escritor argentino Alberto Manguel, em seu famoso "Uma História da Leitura", eram alguns dos lugares mais barulhentos do mundo. Afinal, como as palavras eram vistas desde a antigüidade como representações gráficas de sons, os leitores as reproduziam em voz alta na hora de ler. De repente, se deram conta de que podiam fazer a mesma coisa bem quietinhos. E calaram. A barulheira que o leitor ouve, ao decodificar os sinais, passou para dentro do cérebro e o mundo viu nascer um sujeito silencioso que podia gritar e bradar o que quisesse, em silêncio. Pois esta velha prática, a decodificação silenciosa de 25 símbolos, sofre uma decadência desde o século passado, substituída pela (ou tendo que conviver com a) audiência da televisão e do rádio, do cinema e do computador. E de certa maneira, a leitura hoje voltou a ser como na Idade Média: menos íntima (ensimesmamento) e mais barulhenta (alteração horizontal, diria Ortega y Gasset). Como, num mundo multimeios, um meio de que não podemos prescindir é a leitura - como diz Renato Janine Ribeiro - precisamos estar atentos para este fato da cultura atual.

Hoje, quando mais se precisa dela (a leitura ensimesmada, transformadora, cultural, para além da funcional), num mundo muito mais complexo que antes, este tipo de leitura vem perdendo seu espaço.

Ora, dirão, mas não há mais leitores, hoje? Sim, as pesquisas mostram (especialmente a Retratos da Leitura no Brasil - Instituto Pró-livro, 2008) que há mais leitores hoje que talvez em toda a história do Brasil. Mas também mostram que esses leitores têm em geral uma relação instrumental com a leitura. Leem com respeito a fins, obrigados, não por um hábito cultural. Leem o que o mercado dita que deva ser lido, via poderio da propaganda. E quando saem da escola, deixam de ler.

A leitura funcional (utilitária, pragmática) se consolida e avança, para que os consumidores possam utilizá-las nos manuais, para operarem máquinas na indústria e no coméricio, para utilizarem PCs e mensagens de telefone. Há alguns anos, estive no Quênia e me disseram que os celulares com SMS não se desenvolviam no país devido ao altíssimo índice de analfabetismo. Seria preciso que aprendessem a ler. E de fato, lá (como aqui?) as escolas vinham cumprindo cada vez mais este papel para o mercado, ensinando aos africanos a ler funcionalmente (com conteúdo técnico-instrumental), mas não funcionalmente (com conteúdo crítico, vital). Por diversas e profundas causas, a começar pelos interesses de manter um povo em uma dimensão pré-crítica (como aqui, desde que os acordo MEC-USAID extirparam do currículo todo conteúdo crítico-artístico-filosófico-sociológico, na militarizada década de 60), muito dificilmente conseguem desenvolver a leitura para além do domínio rudimentar de códigos necessários para a "inclusão na modernidade", eufemismo para fazer parte do "mercado de consumo".

No Brasil, a partir dos anos 60, diminui, na escola sem dimensão crítica, a possibilidade de formação da leitura cultural. Ante a sociedade de consumo desenfreado e extrativista dos bens da natureza, nosso principal instrumento para sua superação vai sendo minguado à força de acordos e sofre para reagir (mesmo individualmente) aos valores da sociedade, dominada ideologicamente (pelas armas, antes, e pelo mercado, depois). Nascido no mesmo ambiente, o poderio dos grandes grupos de comunicação orienta cada vez mais para o consumo desenfreado dos produtos impostos "democraticamente" pela hegemonia de uma estética de massa e seu barulhento fordismo cultural, a fragmentação e tecnização da educação (fatiada e transformada em ensino) para servir ao modo de produção. Achata-se assim a possibilidade de desenvolvimento deste velho hábito silencioso humanista.

Peça de resistência, a leitura ressalta como ponto arquimédico e praticamente único lugar onde o sujeito do século XXI pode se apoiar, resistir e defender valores solidários contra a estridência arrogante ao redor. “Não sondamos ainda as potencialidades sinistras do cinema e do alto-falante”, alertava I. A. Richards em "Princípios de Crítica Literária", em 1924. Vislumbrava os efeitos nefastos que eles poderiam causar ao hábito silencioso. Estão aí. Os sujeitos dos países pobres só têm na ampliação de seus repertórios e de suas possibilidades de ação no mundo uma saída para resistir a uma indústria da cultura que berra o que quer, com a força de quem pode chegar a todos os cantos do mundo.

Além disso, depois do período do Estado à força, com o seu esfarelamento nas décadas subsequentes, a escola ruiu com ele. Mesmo dentro da escola, resta aos estudantes, infelizmente, quase que a aposta na educação pessoal, autodidata, possibilitada pela leitura. E é com ela que se poderá fazer alguma frente à transformação da cultura em um entretenimento fácil, que na verdade é a mercantilização do ócio dos trabalhadores: negócio, negação do ócio. Assim, o leitor se auto-educa, não por um capricho autonomista, mas porque, de fato, no meio do deserto, encontra pouco remédio.

Entre as populações pobres, ao menos, não parece haver outra solução do que ampliar seus horizontes pela leitura cultural. “Tá dominado, tá tudo dominado”, cantavam nos morros do Rio de Janeiro. A barbárie impera onde os últimos tijolos do Estado foram roubados (pelos que estavam dentro do Estado). A escola (e a sociedade) fracassa e meninos e meninas arrogantes enchem as salas enfumados de vaidade, brandindo espadas vitoriosas e pisoteando ideais inertes. Heterônomo, com valores feitos de fora, pelos meios de entretenimento, o homem-massa domina com a violência de seus gestos e gostos. Liga a tevê no mais alto volume. Passeia com jornais repletos de sangue pobre, futebol e mulheres nuas. Impulso de vida e impulso de morte, equilíbrio e harmonia de tensões que antes faziam parte da arte, decifradas em silêncio pelos leitores, e que hoje rastejam nas calçadas barulhentas do mundo real. E isso não por uma questão de democratização, mas da demagógica dominação ideológica dos meios de entretenimento (sem dimensão cultural há muito os jornais não oferecem nada além da leitura funcional, desde sua página de polícia, passando pelo esporte, a cultura - chamada convenientemente de variedades - até a política. A própria crítica deixou as páginas dos jornais e revistas para as aduladoras resenhas de propaganda das novidades literárias, musicais e audiovisuais). O século XX desmontou os critérios da arte. O mercado agradece e dita, ele mesmo, o que é bom e mau, o certo e o errado.

Mas o jogo nunca está perdido se estamos falando de seres humanos.

Pois apesar das circunstâncias, do barulho, o sujeito é sempre um espaço de liberdade para além delas, um espaço onde pode estar em silêncio. E pensar. Ou não é sujeito, mas objeto, determinado a responder mecanicamente a certos impulsos, na base do grito. O pragmatismo utilitarista golpeia o sujeito-leitor (leitor do mundo, animal hermenêutico), soterra-o embaixo de uma série de pesadas condicionantes, materiais, morais, legais, intelectuais. “O homem pobre não é livre”, dizia o filósofo gaúcho Gerd Bornheim, vive apertado em suas circunstâncias, quase paralisado, mas mesmo assim exerce alguma liberdade. Ou não é humano.

Sempre lhe restará uma saída, ou um livro (daí a necessidade de amplas políticas de acesso a livros, com bibliotecas centros culturais). E é nessa esperança, nessa fé ao ser humano, que reside a confiança em que ele pode encontrar uma solução libertadora. Posso pôr tudo em dúvida, mas não posso duvidar de que estou duvidando, dizia René Descartes, demonstrando em sua época um sujeito para além das causas-efeito do mundo. Este sujeito sucumbiu junto com a modernidade, destroçado pelas pesadas evidências ao seu redor. Em seu lugar ficou um sujeito determinado pelas circunstâncias, quase a ponto de ser um animal meramente mecânico.

Ortega não vai a este extremo e, em sua famosa frase “eu sou eu e minha circunstância”, mostra um sujeito que já não é o racionalista, nem o vitalista, mas um terceiro que é os dois juntos. O eu-circunstância é liberdade, é poder-ser outra coisa, é autodeterminação em maior ou menor grau, mas mesmo assim autodeterminação. Seguimos duvidando de tudo, como Descartes, mas a dúvida hiperbólica tranca no único ponto indubitável: o homem é, muitas vezes, um animal surpreendente.

Reside aí, neste único ponto seguro, a fundamentação de uma argumentação em favor da leitura como espaço de ação e a esperança na capacidade de reação, insubmissão, resistência e sabotagem leitora.

Por mais que o pragmatismo siga destruindo tudo ao seu redor, quando chega ao sujeito há uma parte dele que está fora do sistema, que não é circunstância, mas sujeito, um eu-com-as-circunstâncias (diria Ortega). É sua capacidade de fazer outra coisa apesar do que o meio condiciona. É a partir deste espaço de silêncio, que ele pode ler, que pode interpretar, que é livre.

No leitor-sujeito (leitor-vital, em contraposição ao leitor-massa, funcional), uma parte está para além do mundo barulhento; inalcançável, portanto, ao pragmatismo-capitalista. Não pode ser alcançado, pelo fato de que é sujeito, de que sua intencionalidade está voltada para outro mundo: o texto. O consumo de massa não precisa de sujeitos autônomos, precisa de sujeitos heterônomos. As editoras mais comerciais não necessitam de leitores-sujeitos, mas sim de leitores-massa, de consumidores de idéias superficiais veiculadas no suporte livro, como se fosse literatura. Mesmo assim, os leitores-sujeitos resistem e mesmo que só um restasse já seria suficiente para fazer toda a grande máquina girar ao contrário. Por quê? Porque o ser humano é lógos (palavra que quer dizer muitas coisas bonitas como ligação, razão e palavra) o mundo tem jeito, que o diga a indignação silenciosa que corre o mundo em diferentes direções pela internet, livros e revistas. Pois os litero-ativistas ligam-se a este movimento chamando a atenção para a realidade de milhões de pessoas cuja única saída contra o barulho ensurdecedor do medieval homem-massa tem sido a abertura de um livro, numa revolução pessoal e em silêncio.

Os leitores não têm mais Estado, não têm família (de leitores), não têm escola. Resta a intimidade, o eu-circunstância, como reduto de liberdade, onde, ademais de todas as circunstâncias, os homens e mulheres podem ser chamados a fazer as coisas de outro modo, por uma pecinha que têm dentro de si, chamada, desde que nos conhecemos por gente, de razão (razão vital).

Integram um exército de inconformados e realizam, cada vez mais, ações bem menos silenciosas. De todo o modo, são elas também ações de silenciosas redes de resistentes. Conectam-se e distribuem informações que não circulam pelos meios tradicionais, através de novas revistas e livros e de listas de discussão que correm o mundo no mais subversivo silêncio. A mesma subversão que compartimos neste momento. Psiu!

Daí o caráter revolucionário de nossa ação, sua real possibilidade de mudar o mundo, começando pelo que está mais ao nosso alcance: nós mesmos. O leitor é, concretamente, um campo de batalhas onde o pragmatismo utilitarista pode ser vencido e onde as mudanças podem começar já, terminada a mais nova leitura. É isso o que vem acontecendo hoje em todo o mundo quando mais um de nós acaba de ler algo novo. Nosso movimento é silencioso. É o de passar para trás, com calma, a página já lida.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Cirila de laranja, 1974

Em 1974, com minha mãe e meu irmão, comecei minha vida nômade, fisicamente me movendo pela Bola da Terra. Tinha quatro anos então, e saímos de Santa Maria para morar em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Quando o sino bateu e o trem deixou a maior estação do Estado, ninguém de nós tinha a menor idéia: na verdade, éramos levados não pelo trem, exatamente, mas pela industrialização pela qual passava o militarizado País daquela época.
Os vagões iam lotado de gente com suas esperanças de vida melhor. E, nesta corrida do aço, levas e levas de mulheres com lenços na cabeça e homens com malas de couro e crianças no colo desciam na estação Canoas, bairro Mato Grande, para trabalhar nas metalúrgicas. E não era só para a frente que o trem andava; ao mesmo tempo, a cada estação que passava deslocava para trás na plataforma milhares de outros. Entre os pobres, eram os mais doentes ou os que não podiam por um ou outro problema sair da vida rural. As cidades do campo, todas elas diminuíram. Boca do Monte, a nosa, murchou.
Em poucos anos, hordas de retirantes formigavam os entornos das capitais de todo o Brasil, em condições muito piores do que as vividas antes. Em dez anos todas as capitais brasileiras já estariam irremediavelmente transformadas. Em 20, eram já zonas de barbárie e subúrbios violentos. A circunstânca nos levou a nos estabelecermos numa casinha alugada, numa rua sem asfalto à beira do valão. A 15 km da Cidade Sorriso, como então chamavam Porto Alegre.



Percorremos 350 km em 12 arrastadas horas de trem. Os bancos eram de madeira, duros e frios, mas podiam ser virados um de frente para o outro, formando uma espécie de cabana entre os encostos. Minha mãe nos colocava ali embaixo, em cima de um cobertor, para brincar com homenzinhos de plástico e dormir, se conseguíssemos. Era impossível, por puro entusiasmo com tudo aquilo ao redor: cores e sons magníficos nunca vistos antes, como um cinema tridimensional de 180 graus.
Ainda por cima, o trem balançava divertidamente para os lados e parava e arrancava de 20 em 20 minutos. Era impossível descansar de tanta coisa boa.
Meninos com bacias tapadas por panos de prato ofereciam nas janelas, que os braços esticados trocavam por notas de cruzeiros. De vez em quando minha mãe aceitava um daqueles chamamentos e os trazia para nós, em dois pedaços, a barriga estribuchada da massa de um pastel. Mas nada muito forte: meu irmão tinha lábio leporino; eu, uma quase incurável infecção intestinal.
Meu pai tinha ido na frente e, ao conseguir emprego como ajudante de metalúrgico, enfim também nós atiramo-nos no chamado êxodo rural, com os poucos móveis no vagão de cargas. Lembro do quepe e do uniforme do fiscal picotando os bilhetes escorado nos bancos. Não esqueço o gosto da Cirilinha, o refrigerante de laranja de Santa Maria, que tomei enquanto os xis gigantes das estruturas de uma ponte de ferro passavam pelas janelas abertas.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Hack, política e cultura livre

Acho muito interessantes dois princípios da cultura hacker*. O primeiro é o da colaboração, às vezes anônima, em relação a um objetivo comum. Em diversas ocasiões (e certamente isso está acontecendo neste momento) vinte ou mais meninos e meninas espalhados no mundo todo e trabalhando sob um mesmo código fazem um game, uma tradução ou um programa de computador em semanas, de maneira lúdica e participativa. O resultado é partilhado por todos e utilizado, muitas vezes por milhares (até milhões) de pessoas, as quais eles sequer têm ideia de quem existam.

O segundo princípio é o seguinte: o que já está pronto, não faremos de novo. Copiaremos. Usaremos esta ferramenta virtual para produzir coisas novas. Assim, frente a um problema – um software para ajudar deficientes visuais a ouvirem livros, por exemplo – o primeiro que fazem é procurar em listas de correio ou num buscador de internet se um programa desses existe ou se está sendo desenvolvido em algum ponto do planeta. Se existe, ótimo: ´bora copiar, usar e testamos se funciona realmente. Se não funciona bem, o que podemos fazer para melhorá-lo? E só se ele não existe é que um praticante da filosofia hacker (hack são truques, inversões e sacadas novas que podem ajudar a resolver um problema) vai começar algo do zero. Às vezes passam meses, até anos, mergulhados em um gigante sistema de símbolos de uma cabala virtual indecifrável para nós mortais, a tricotarem um mundo absolutamente real, de ferramentas que podem ser utilizadas com nossos dedos e nossas mentes. E todo este esforço, de graça.

Mas o que eles ganham com isso, perguntariam o cético, o utilitarista e o pragmático? Por que se dedicam a fazer uma coisa dessas que não lhes dá nada em troca? Nada? Depende de que valores se está falando?

Este exército cada vez maior, que dia a dia cutuca o calcanhar de Aquiles do mundo da acumulação capitalista (por não estar nem aí para os seus valores), o faz pela vontade de colaborar, pela alegria de ver pronto, pela fruição de seu próprio espírito vivendo à margem da alienação do trabalho mercantilizado ou, finalmente, porque tudo isso, além do mais, dá prazer e vontade de continuar fazendo. Como um jogo do homo-ludens-sapiens-demens que somos quando não diminuímos o fim e o princípio de nós mesmos. E a fonte desses sentimentos é o oxigênio da criatividade, libertária e bela. Por baixo de tudo isso está uma visão de mundo com princípios arejados e arejadores e que, desde que encontrou condições tecnológicas para tal, se desenvolve à margem dos viciados códigos de um mundo real cada vez mais opaco e empobrecido.

Muitos desses hacktivistas o que querem é simplesmente mostrar para os amigos seus feitos de ativistas românticos. E por isso, constituem-se em uma geração de pessoas com valores muitas vezes (mas não necessariamente) à margem da cultura de massa e da violência subjetiva, simbólica, dos grandes meios de comunicação que falam com todo mundo, mas não com eles. Esses, falam mais entre si. Em rede.

Uma imensa parcela deles não tem televisão em casa, nem terá, porque acha este um equipamento eletrônico dinossáurico, muito pouco interativo. Softwares normais, proprietários, idem. Afinal, não os deixam mexer e fazer as coisas de maneira diferente, com sua criatividade e visão de mundo. O que quereriam eles com isso? Pois acredite: tem aí fora uma massa crescente de pessoas que passam a se relacionar com o mundo a partir de outros valores, concretíssimos valores vividos e que vêm deixando para trás, no mínimo no ridículo, aqueles que tanto enfeiam o planeta com sua alma pesada, cansada de tanto acumular e nada colaborar.

E eles estão na periferia. Não apenas nos Estados Unidos ou na Inglaterra, mas na Espanha, no Brasil, na Índia, países em que o uso de plataformas livres vem se desenvolvendo aceleradamente. Hoje, por exemplo, em milhares de cidades do Brasil inteiro, qualquer criança que chegar na Biblioteca Pública, e usar os computadores do telecentro estará entrando mesmo sem saber no mundo do software livre. Querendo ir atrás, poderá fazer dessa uma porta de saída para situações de vulnerabilidade social às vezes extrema, porque nos softwares livres as portas não estão cadeadas por códigos-fonte fechados. Daí a necessidade de se trabalhar com o conceito não de inclusão digital (inclusão como passivos consumidores de softwares proprietários), mas com o conceito de cultura digital, em que os usuários são participantes ativos da cultura livre.

O grande hack da cultura digital está em sua noção de propriedade privada. Como no mundo virtual, não há restrição material para a posse de um objeto (que pode ser copiado indefinidamente), na cultura colaborativa se fala - com um pouco de ironia, é claro - é da radicalização da propriedade privada, em vez de sua abolição. O mesmo com a liberdade...

E a cultura colaborativa começa a descer do mundo hakcer para o mundo real. Cada vez mais, em diferentes áreas, conceitos como de copyleft (o contrário de copyright, restritivo) e ação cidadã em rede são aplicados a outros cantos do conhecer e do fazer. Aqui no Rio Grande do Sul, desde o 1º Fórum Social Mundial até o descentralizado, em 2010, temos o privilégio de conhecer várias dessas alternativas concretas em curso. Pra ficar em alguns: Zaira Machado e Antonio Martins (no jornalismo), Senhor F, Éverton Rodrigues, Teatro Mágico, GOG e as Bandas Independentes Locais - BIL (no mundo da música independente e da Música para Baixar - MPB) enfim...

Mas também nas sementes, na agricultura orgânica e no mundo jurídico (sim, há hacks jurídicos, como os do advogado espanhol Javier de la Cueva, em termos de propriedade intelectual), outros hacks começam a aparecer. É a aplicação da "regra de três" de Vicente Jurado (ourproject.org), programador e ativista ecológico espanhol. Passagem do mundo virtual para o concreto: se para softwares privados temos softwares livres, para sementes privadas temos sementes livres, para outros problemas, temos outros X, também: enfim este é o mundo das alternativas que começa a se formar.

E com relação à arte? À produção, distribuição e fruição artística? Se tem como copiar e distribuir gratuitamente, por que não fazê-lo? Só se o autor não o permitir, usando uma licença que proíba a troca (o copyright restritivo), para acumular sabe-se lá o que, em tempos de falência múltipla das indústrias culturais tradicionais. Gravadoras e empresas de cinema estão indo para o beleléu há anos, e só quem não viu isso é que segue alimentando o cadáver, confundindo o copyright (cedência dos direito aos donos dos meios de reprodução), com direito autoral (direito moral do autor).

Mas, e aí? É possível o artista viver de copyleft? O copyleft faz mal à cultura? O copyleft acaba com o direito moral do autor em relação a sua obra? Claro que não. Dos cinco pontos elencados no Manual de Copyleft (que o leitor pode baixar de graça na www.traficantes.net, da editora madrilenha Traficantes de Sueños), um seria suficiente para esclarecer de vez a situação. Trata-se do chamado "efeito de ser conhecido", que se amplia vigorosamente com o uso de licenças livres na comparação com o direito de cópia das majors, que restringe a circulação das obras intelectuais etc. Se se quer ser colaborativo (e ainda ganhar uma grana, muitas vezes a única para sobreviver), pode-se usar licenças para este fim, como creative commons. E continuar sendo o dono de sua obra intelectual sem precisar vendê-la por míseros trocados à moribunda indústria tradicional - trocados que só são pagos em dia aos mais famosos, pois o restante dos escritores e músicos menos conhecidos vive mais é de fontes indiretas, como palestras e shows.

Dentro de um último grupo, há os ainda mais radicais. São aqueles que produzem colaborativamente e distribuem seus produtos de maneira gratuita porque querem - simplesmente porque querem - ver algumas rachaduras se formando no falido sistema de interpretação do mundo atual. Recolocam a utopia, num outro patamar, pois sabem que assim como a ponta do discurso da esperança é a ingenuidade, a ponta do ceticismo é o cinismo. E o cinismo é imobilizador. De minha parte, também prefiro o primeiro ao segundo.

* Hackers são programadores e desenvolvedores de softwares livres se diferenciam dos crackers, os que usam seu conhecimento em informática para quebrar e não para construir colaborativamente.