domingo, 9 de dezembro de 2012
Homem-massa para download
Meu livro "Homem-massa: a filosofia de Ortega y Gasset e sua crítica à cultura massificada", publicação da Bestiário com a Fundación Ortega y Gasset está disponível para download no site http://www.bestiario.com.br/homem-massa.html, sob licença creative commons. Apareçam.
domingo, 28 de outubro de 2012
Saturno no laranjal
Nosso pai era um exímio descascador de laranjas. Com velocidade e precisão, ele deslizava a faca afiada entre o amarelo da casca e o branco do bagaço, sem nunca feri-las ao ponto de aparecer alguma parte da polpa. O que nos encantava era como se formava uma espiral comprida, que ia descendo de sua mão a cada volta da lâmina afiada e que só terminava quando a tampinha da outra ponta também estava feita. A casca, então, despencava, dali, inteira para a grama. A gente se acotovelava pra chegar primeiro e era sempre eu, o mais velho, que as pegava antes, para brincar. Pareciam, à minha imaginação, pequenos móbiles ou baralhos de mágico que se abriam em sanfoninhas perfumadas. De tal maneira era feito aquilo que nós - que nunca conseguíamos nem uma coisa nem outra, ou seja, nem retirar a casca intacta nem fazê-lo sem esfolar - e consequentemente sangrar - a laranja aqui e ali, ficávamos de boca aberta com a habilidade dele.
Nosso pai fazia isso em silêncio. Uma, três, cinco vezes, embaixo da laranjeira. Às vezes se esticava todo e puxava um galho para baixo para pegar as mais maduras. Nós três ficávamos ansiosos querendo saber para quem ele daria, primeiro, a laranja tão habilmente descascada. Mas ele sempre nos desapontava. Não digo que apenas no começo ele tenha gerado esse sentimento e que depois a gente tenha se acostumado. Nós sentávamos a uma pequena distância a vê-lo comendo, sozinho, cada uma daquelas laranjas tão bem descascadas. Com a já referida habilidade, nosso pai chupava-as inteiras e jogava fora os bagaços intactos, como se fossem cabeças de crianças murchas.
J.A. (contos)
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Cultura digital e desmassificação
Em 2020, o mundo deverá ter mais de 24 bilhões de dispositivos conectados em rede, como apontam pesquisas da empresa Machina Research http://www.machinaresearch.com/), especializada no tema. Com isso, haverá uma média de três aparelhos conectados por pessoa, incluindo celulares, eletrodomésticos, tablets e até computadores. Eles poderão ser utilizados heteronomamente. Ou de modo
um pouco mais autônomo. Se de maneira heterônoma, continuarão gerando massificação, mesmo que venha a ser um tipo customizado de massificação. Se de forma mais autônoma, poderemos ver a emergência de indivíduos-redes desmassificados?
Certamente que os atuais avanços da era digital podem, se bem aproveitados, gerar um ambiente menos favorável à homogeneização cultural e à vigência do comportamento do que Ortega chamou de homem-massa - este produto da técnica da era industrial que se desenvolveu na virada do século XIX para o século XX. Agora, em pleno século XXI, mais uma vez o desenvolvimento técnico vem trazer questões importantes para se pensar sobre como o ser humano se comporta em relação à tecnologia que ele mesmo desenvolve.
Diferentemente do homem-massa delineado por Ortega na década de 30 do século XX, os seres humanos atuais, do ponto de vista tecnológico, têm abundantes condições de viver numa multidimensionalidade da cultura. Há mais acesso à diversidade cultural e às condições de se fazer as recombinações de elementos, processos e visões de mundo, muito mais do que em qualquer outro momento da humanidade. Portanto, em se tratando de cultura, essa palavra cujo sentido em muito tem a ver com modos de fazer, de técnicas e interação de indivíduos entre si e destes com a natureza, uma cultura ligada ao ambiente digital não pode ser desconsiderada numa leitura mais plena de nosso tempo.
A cultura digital e seus rebatimentos estéticos (diversidade cultural e recombinações), éticos (ética do compartilhamento) e políticos (ação cidadã em rede,
descentralizada e com menos mediação de estruturas verticais) são, em termos mais amplos, um importante tema de nuestro tiempo. Não se trata mais da perda da
aura da arte na época de sua reprodutibilidade técnica - como assinalava Walter Benjamin - mas, devido à desmaterialização dos suportes ocorrida nas últimas
décadas, trata-se da perda da aura da obra de arte na época de sua infinita reprodutibilidade técnica.
Há mais condições de heterogeneidade, diversidade, inter e transculturalidade, portanto mais condições (e responsabilidades) dos sujeitos
contemporâneos fazerem a si próprios. Foram décadas de unidimensionalidade (O homem unidimensional, de Herbert Marcuse). Nelas, a sociedade industrial impunha quase que uma única dimensão da vida: uma racionalidade “tecnológica” (físico-matemática, para
Ortega) de mão única. Ela dominava e oprimia por meio de aparatos de controle das consciências humanas, meios de entretenimento e comunicação de massa que hiperdimensionavam em todos a pulsão de vida (sexo, jogos, entretenimento) e a pulsão de morte (violência urbana e sensação de insegurança extrema). O resultado
eram homens e mulheres autômatos, incapazes de se opor ao sistema, pois vivendo a mecânica do conformismo, dentro das benesses do conforto.
Agora, com as novas condições, não há também mais desculpas: o homem-massa, paciente e agente de sua condição de massa, invertebrado habitante do ambiente técnico-consumista do século XX, dominado pelo mercado, por partidos, sindicatos e estados ortopédicos, de cima para baixo, não tem mais a quem jogar a responsabilidade. Ele pode recuperar sua autenticidade, como em nenhum outro momento da Humanidade. A técnica do século XIX engendrava o homem-massa, dizia Ortega. A técnica do século XXI pode engendrar o pós-homem-massa.
Se para os frankfurtianos e para a teoria crítica, o comportamento heterônomo era inculcado pela indústria cultural nas cabeças das pessoas, hoje este elemento se fragmenta. Desaparecem dia a dia os mediadores e as indústrias de fabricação de suportes materiais da arte e, de todo lado, movimentos de indivíduos em rede trazem as visões da periferia para o centro do debate sobre cultura. Com tudo isso, é possível dizer que estão dadas as condições técnicas para a
superação tanto do homem massificado quanto do homem atomizado, fechado em si, solipsista, consumista individualizado e não participante de sua circunstância?
Cultura digital e desmassificação I
Pós-homens-massa
Aqui e ali já se notam as estratégias das empresas na internet para gerar comportamentos massivos através de ambientes pós-massivos. São espécies de homens-
massa customizados, a parecerem indivíduos autônomos, mas no fundo não só seguem como
aprofundam os padrões de consumo da era industrial. Um perigo é que, com as novas tecnologias de produção pós-industriais, a produção capitalista atual sabe que não
precisa mais fazer nada em série, nem seres humanos em série. Hoje, trabalhando com a tática de criar – eles dizem “descobrir” - nichos de mercado, ela amplia seu
poder ao fazer homens-massa customizados, com aparência de autônomos.
As roupas e os cabelos parecem diferentes entre si, mas este tipo de homem-massa customizado segue o mesmo por dentro: inautêntico e diminuído ao elemento fundamental do consumidor, em vez de responsável por fazer sua própria vida. Mesmo no ambiente pós-massivo, este tipo massificado pelo mercado continua massa, pois segue sendo educado pelo mercado e pelos usos da sociedade desvitalizada pelo pragmatismo utilitarista, materialista e agora pela internet para se comportar
como massa, invertebrada e vaga.
Em sentido contrário, nunca se teve tantas condições de se “hackear”, fazer truques, implantes, rachas no sistema. A articulação da cultura colaborativa digital com a economia solidária tem revelado um potencial gigantesco de revitalização cultural, em todo o mundo onde ela se desenvolve. Uma das razões é que ela é capaz de “destampar” culturas populares rurais, urbanas, suburbanas, antes invisibilizadas, por sua capacidade de descentralizar e multidirecionar os fluxos
de informação e de recursos, antes unidirecionalmente ativados desde um centro industrial para o consumo de massas. Sua capacidade de transversalidade e transdisciplinariedade permite que se gerem soluções e alternativas, convergências entre futuro e passado, de saberes e fazeres tradicionais com as inovações de ponta,
sem no entanto isso significar homogeneização, mas mistura, diversidade, amálgama ou síntese.
E como seria este pós-homem-massa? De maneira dialética, é preciso procurar a virtuosa posição de convergência, como Aristóteles ensina com o seu certeiro meio-termo justo. Com as condições atuais, ele pode sair do binarismo. Pode não ser nem horizontalidade nem verticalidade somente. Pode deixar para trás a infértil ideia de não-sujeito da pós-modernidade, da quase anulação da possibilidade de agir
esteticamente, politicamente e eticamente da pós-modernidade, mas não precisa retornar ao indivíduo solipsista cartesiano, cheio de uma moral e de uma razão
mortas, como alertava o filósofo espanhol. Nos dias de hoje, começamos a ter a convivência de indivíduos solipsistas, homens-massa, homens-massa customizados e pós-homens-massa.
Primeira parte do posfácio de
Homem-massa
A filosofia de Ortega y Gasset e sua crítica à sociedade massificada
Lançamento dia 17 de outubro, 19h.
Pinacoteca
Rua da República, Cidade Baixa, Porto Alegre.
Cultura digital e desmassificação II
Em vez de massa, o comum
Pelo menos há mais condições de surgirem pessoas conscientes desta circunstância e que se conectam a outros, em rede, para gerar capacidade de
influir e de produzir narrativas novas, mais autônomas que heterônomas. É também outra ideia de coletivo, não a que Ortega criticava, em cujo interior as ideologias das grandes narrativas achatavam as consciências. Trata-se de uma ideia de coletivo em que ponto a ponto, pessoa a pessoa, os sujeitos que o compõem têm liberdade de ser
e de pensar por si próprios. Em vez de massa, poderemos falar em “comum”, em que os indivíduos, com mais liberdade do que antes se reúnem livremente, autonomamente, para colaborar, para trabalhar em conjunto. A massa é passiva, o comum é ativo.
Estão dadas condições para um pós-homem-massa, integrante de uma humanidade-rede, diversa, amalgamada, em que aos traços da homogeneização cultural são acrescentados uma heterogeneidade viva de indivíduos em rede, formando coletivos que pensam o comum a partir da contribuição efetiva, ativa e crítica de seus integrantes. A esses está colocado o problema de saber a que se ater e compreender o “tema de nosso tempo”. Também se pode falar na necessidade de construção de uma outra ideia de Estado, de partidos e ideologias, não ortopédicas (como criticava Ortega), mas também não ausentes a ponto de permitir o laissez-faire do século XIX, o liberalismo econômico (que ele também criticava pela substituição que este fazia dos valores, por preços) tomar conta da cultura.
É tempo de falar sobre as condições de possibilidades da superação da dicotomia massa-minoria abordada por Ortega pois, como as condições da análise de Ortega mudaram - as circunstâncias técnicas se transformaram - a pedagogia social e o papel das minorias mudam também. Precisamos de uma síntese nem horizontalista (massa) nem verticalista (minoria), mas uma espécie de diagonal provocadora de sínteses e convergências: é a era do “e”, das conjunções. O desafio é similar ao que Ortega colocou-se: o de não ser binário, idealista ou realista, nem racionalista nem vitalista, nem eu nem circunstância, mas amálgama de um e outro.
Dessa maneira, a tensão massa-minoria das sociedades, pela descentralização dos meios de produção e reprodução da cultura, traz outro sentido: a pedagogia
necessária não é aquela de poucos homens autênticos, nobres, seletos e esnobes do início do século XX, atuando sobre a massa, mas uma vanguarda formada por pessoas
conectadas em rede no mundo todo, capazes de liderar processos locais e globais de combate à unidimensionalização do mundo, à massificação e à homogeneização cultural. Autênticos, pode-se dizer, por professarem e viverem valores vitais, colaborativos, por trabalharem com uma razão com mais substância que a razão instrumental, físico-matemática. Não sabemos o que Ortega pensaria disso, hoje. Talvez não concordasse
com estas conclusões. Mas, como pensar era, para ele, aventura de entusiasmo raciovital, assumimos seu raciovitalismo como ponto de partida para a aventura da razão. Não como ponto de chegada, o que seria também um ortopedismo que, seguramente, Ortega desaprovaria.
Assim, tendo como base o “nem racionalismo, nem vitalismo: raciovitalismo”, de Ortega y Gasset, temos a possibilidade de pensar em um programa raciovitalista para a superação do problema da massificação nos tempos de hoje. Tempos em que
vivemos um híbrido de era pré, industrial, e pós-industrial, e em que a homogeneização cultural e a padronização de comportamentos começam a ser contestadas em todos os cantos do mundo onde haja acesso à internet e sua consequente possibilidade de ação em rede, não do ponto de vista utilitário e consumista,
mas cultural: a cultura digital.
Neste sentido, mais que a conexão física, obviamente fundamental, o que importa é a cultura de rede, a cultura colaborativa, pós-industrial e pós-
massificante que vem sendo construída, pessoa a pessoa, nessas conexões. Em nosso entendimento ela, a cultura digital, é condição para revitalizar a própria ideia de cultura, pesadamente homogeneizada. Ela é condição de possibilidade de se desmassificar, “destampar” o vital da diversidade cultural, das culturas populares, do interior dos países (e seu conteúdo extremamente valioso do ponto de vista de uma metáfora daquilo que se tem dentro, que tem entranha, que tem conteúdo, em vez do
superficial, ostentatório, distintivo ou apenas mercadológico da cultura de produção fordista para consumo de homens-massa).
Há uma razão sendo produzida nas redes, que não é apenas técnica nem puro vitalismo irracionalista, mas uma razão que vem da vida (de milhões de vidas de indivíduos eu-circunstâncias em rede), com um potencial enorme de trazer novos valores à tona. Se, como disse Ortega y Gasset no início do século XX, o sujeito é um
eu-circunstância, devemos considerar a circunstância atual de intensa conectividade ponto a ponto. Nessa, não mais pela pedagogia social de minorias, mas pela
exemplaridade da participação ponto a ponto, o homem-massa da sociedade massificada tem condições de se tornar um pós-homem-massa, desde que utilize as novas tecnologias para gerar autonomia, em vez de se utilizar dos mesmos para gerar heteronomia, homogeneização e consumo massificado.
O ambiente digital provoca, com suas possibilidades, o homem a fazer novas narrativas de si próprio, em termos de valores, propriedades, ideia de si e da sociedade etc. O digital é uma nova circunstância. Se o homem-massa é produto da era industrial que gerou o chamado “fenômeno do pleno”, o consumo em massa e a homogeneização da cultura, é preciso pensar se as mudanças tecnológicas do nosso tempo, com a emergência da internet e das redes também não dão condições para uma superação do problema criado pela relação desresponsabilizada do homem com os produtos da técnica daquela época, bárbaros a colherem seus produtos, como em estado de natureza. Conseguirão os sujeitos de hoje utilizarem estes ambientes de rede de
forma a gerar autonomia e sujeitos-redes, indivíduos-redes, eu-circunstâncias-redes, ou, ao contrário, o rearranjo do mercado conseguirá repor o quanto de elemento homogeneizador necessita para a sociedade continuar sendo massificada?
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Nem analógicos, nem digitais: digitalógicos!
Numa das mais lúcidas intervenções de Boaventura de Sousa Santos no Fórum Social Temático 2012, o sociólogo português disse que a ciência política precisa trabalhar hoje com uma terceira categoria, para além da representatividade (partidos e estado) e dos movimentos sociais. É a categoria de "presença". Nesta, ele agrupa uma boa parte dos jovens atuais, que organizam via redes sociais presencialidades, multidões em uma praça, uma rua, em frente a uma loja para protestar, cada vez mais sem a mediação das duas primeiras categorias.
Indagado sobre se esses movimentos novos não estão muito distantes dos movimentos tradicionais e se sua pauta poderia ser considerada de esquerda, Boaventura respondeu que o que vê é, na verdade, os próprios movimentos tradicionais, os sindicatos e os partidos de esquerda de costas para esses novos movimentos. Para Boaventura, o problema é que os movimentos tradicionais não têm o costume de se relacionar com a sociedade em geral (com a maioria das pessoas), mas restringe seu interlocutor à chamada sociedade civil "organizada". "A imensa maioria das pessoas não está organizada em partidos, sindicatos e movimentos", lembrou Boaventura. E, com as novas tecnologias, organizanm suas próprias formas de ação. Além disso, considera as pautas desses movimentos de jovens indignados mais à esquerda que a de muitoa partidos e governos progressistas.
Portanto, um diálogo precisa ser buscado com eles, pelos movimentos tradicionais, sob pena destes se cristalizarem e diminuírem seu poder de articulação com a realidade das ruas. Boaventura dividiu o tema entre política dos corredores (burocráticos da representação) e política das ruas (na presencialidade coletiva de indivíduos). No final de sua exposição, disse a ele que há anos falamos no FSM que entre os verticalistas (tradicionais) e os horizontalistas (novos movimentos), precisamos de um meio termo com o que há de positivo dos dois. Chamei isso jocosamente de "Diagonalismo", com o qual concordou rindo. O mesmo se passava dentro do FST entre os analógicos e os digitais: nem uma coisa nem outra é o que precisamos, mas um terceiro, mais sistêmico: digitalógico, ou o que seja.
FSM digitalógico
Caso não se recicle depois deste janeiro de 2012, o Fórum Social Mundial poderá passar a ser considerado um espaço de mediação entre movimentos e alguns grupos de Ongs e não de ação direta, como os mais exaltados da Primavera Árabe esperam de uma ação política que “mude alguma coisa”, nem que seja derrubar um ditador sem saber o que colocar em seu lugar. Para o o FSM seguir sendo considerado legítimo espaço de articulação da sociedade civil global, ele não pode se “cristalizar” nem fazer de sua história uma imanência tautológica e autoreferente, ineficiente para gerar as transformações necessárias. E precisa de novos pontos de contato com os mais jovens. Assim como a esquerda como um todo necessita.
Poucos desses jovens, conectados que estão ao infinito da produção estética e simbólica via rede, podem ser atraídos para a ação política pela antiquada estética – dos sindicatos, dos partidos e do próprio Estado. Para esses jovens, a política se confunde muito com a fruição simbólica, com comportamento, a sensação romântica de que são sujeitos dentro de uma coletividade e que fruem da ação direta como se estivessem em grandiosos shows de rock, em grandes happenings.
Trata-se de um desafio ante uma tradição política que, por pragmatismo ou preconceito de que se deve disputar a infraestrutura e não a estrutura (a cultura), exageradamente se afastou da cultura e da arte. Como se, em se tratando de humanos, a cultura não fosse a própria infraestrutura e a realidade. Para Carlos Fuentes, a realidade é “o real mais o imaginário”, para Ortega y Gasset o homem é o “animal simbólico” justamente para quem o “supérfluo é o necessário”. No FST, participamos do GT de Cultura para a realização do Festival Internacional de Cultura Livre (Ficlivre), que dialoga diretamente com esta estética, por meio da música, do teatro, circo, literatura, cinema e artes visuais. Arte, cultura colaborativa e política. Onde achamos que há um caminho a ser trilhado para o encontro entre as duas pontas.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Construindo um Estado-rede
O Fórum Social Temático de 2012 gerou uma oportunidade para o FSM e para o Rio Grande do Sul. Com esta nova orientação do FST, abrangendo muito mais que as áreas de justiça social e ambiental, fomos também chamados a ampliar, como Estado anfitrião deste encontro, nossa participação para além das áreas de relações internacionais, cultura e meio ambiente. Uma das ações muito concretas e que emergiram das contribuições de nossa experiência atual foi o Gabinete Digital. O governo do RS, como gerador de uma ideia positiva de Estado, um “Estado-rede”, está contribuindo com esta iniciativa para superar a dicotomia atual, em que a sociedade parece de um lado e o Estado de outro.
No FST 2012, mostramos ações que compõem o nosso sistema de participação popular, com o Orçamento Participativo, o Planejamento Plurianual Participativo, o Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico e Social, o Gabinete Digital, as dezenas de conferências já realizadas em todas as áreas, os colegiados setoriais de cultura e outros instrumentos de que o governo gaúcho se utiliza para fazer um Estado cada vez mais sob controle público e em relação mais direta com o cidadão. Não um estado ortopédico, nem um estado mínimo, ausente de suas obrigações, mas um Estado-rede. Em rede e capaz de encantar para a política, com novos protagonistas, de maneira compartilhada. Sem a arrogância do Estado vertical e sem diálogo, é uma mostra de um Estado generoso e atento ao que esses movimentos reivindicam. Diminui-se, assim, a distância formada entre esses grupos e as instituições do Estado, de forma a evitar sua instrumentalização por interesses não-democráticos. Um Estado-rede pode ser uma resposta adequada a um momento que precisa de sínteses e de alternativas para seus profundos dilemas.
Não há dúvidas de que frutificou a experiência porto-alegrense e de que esses jovens, hoje com 17, 18 anos, crescem tendo como referência o altermundismo e “o espírito de Porto Alegre” mais do que a cultura política imediatamente anterior, marcada pelas experiências do socialismo real, o excessivo corporativismo sindical, as verticalizações dos partidos e sua experiência de Estado: o “Estado providência das empresas” do neoliberalismo. Na América do Sul, ao longo dos últimos dez anos e liderados pelo Brasil, praticamente todos os governos, excetuando-se atualmente Chile e Colômbia, se orientam conceitualmente muito mais pelo chamado “Consenso de Porto Alegre” do que por qualquer outra fórmula pré ou pós dissolução do socialismo real. Atualmente, esses governos constroem pouco a pouco uma ideia de Estado mais horizontal e comprometido com mudanças sociais, a partir de práticas que ganharam força e visibilidade no Fórum de Porto Alegre.
Nem horizontalista, nem verticalista, mas o que há de positivo entre esses dois vetores. Nem moderno, nem pós-moderno, mas uma superação da dicotomia para um estado neomoderno ou ultramoderno. Como aproveitar este momento pós-fórum para aprofundar uma ideia positiva de Estado, principalmente entre as populações mais jovens? Este é, em termos políticos, o tema do nosso tempo.
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